2009-12-27

livro poesia amor


as páginas abriam-se paradas à espera
num equilíbrio como quem muda
num certo ângulo de ramo de flores
caules soltos unidos
a lombada sobre a madeira
o cheiro era a lareira
o calor fez uma brisa ligeira
eras tu
num beijo

Pedro

2009-12-23

uma farça farsa ou que raio de grala


eles não sabem que o sono
é uma constante da escrita
e sempre que um homem sorna
o mundo farça e avanca
como rola colorida
um revisor sem esperânça

da farça que grala
ao prelo sem grelo
uma farsa treta
uma farsa gralha?

Pedro
pois daqui http://aspirinab.com/valupi/a-literatura-e-uma-farca/

do ser


somos o que nos deixamos ser

Pedro

2009-12-21

Amélia



saiu esta semana, fresquinho
já tenho o meu
livro e cd

Pedro

2009-12-20

por entre o ar que não vês


o traço do olhar
esse contínuo
diz tudo
diz-te tudo
diz te tudo
olha como olha ele
o teu olhar
e sente

isso
amor


Pedro

do perto ao longe


uma linha
sentido
veias de sentidos
como entre sangue
vida

Pedro

2009-12-18

época fora


um doce
a silêncio
de tom
confuso
o tempo
acorde
de quente
recolho

Pedro

2009-12-12

do menos ao mais espanto


em jeito de confesso digo
como me vou entretendo entretido
desta aparente ou real
infinitude
variante
a linhas
o diverso
sem saber no termo o resto
onde fique o tempo
de um aqui o horizonte
tempo o sol posto

Pedro

espera


com vontade
de ti
de te
de me
ser

Pedro

entre


num frio seco
o Vodka vermelho
devagar
lento
bebido entre um olhar
guloso o sentimento

Pedro

2009-12-11

uma ideia


todas as ideias têm uma raiz comum
a sobrevivência
todas as ideias têm um caule comum
folhas
flores
frutos
sementes
comuns

as ideias são comuns
parasitas
sobreviventes

tantas coisas que as ideias comummente são

Pedro

2009-12-10

quando uma planta também é mais que um portal


no sentido literal
no sentido ambiental
floral
raízes
um também estado emocional

Pedro

e talvez madrugada ou 5 e um quarto


é cedo
a manhã adormece
cansada de não ser dia
ainda
bem
que é noite
cedo
ainda
ainda bem
que à noite
é noite
até ser dia

Pedro

2009-12-09

tempo


finamente recortado
contra o frio da rua
- je suis antiquaire, j'achète des antiquités, avez vous des antiquités à vendre?
- non
não lhe falei da tendinite
tem algum tempo
não tanto que seja antiga
ou que a considere antiguidade
mas nunca se sabe
interessaria a um belga antiquário?

Pedro

paralelos


um dia
sigo a luz
que te caminha
entre os passos sombra
elongadamente interstícios
filigranas emoção os pensamentos

Pedro

2009-12-08

Natal


há momentos que não sei como os vivo porque sendo novos não os identifico

como identificar o novo desconhecido?
por comparação, quase mímica, um sentir de antes

e o que terá sido o sentir primeiro? que seja memória aos poucos feita
para ir sentindo, recordando, viver
viver como memória de sentir antes? não sei, há alturas que não me apetece saber

sei que há momentos que não sei como os vivo porque novos
como ver uma imagem de uma árvore de natal especial
a árvore, o natal que se avizinha, a forma da árvore
o percurso da árvore, de como a encontrámos que nos encontrámos

o natal é isto

Pedro

que tempo


que tempo passa em mim de ti
que não é tempo
que não é
que é
que é um tempo
de ti em mim

Pedro

2009-12-07

sei


Sei o beijo que te dei, todos os beijos que te dei, tocados, no limite de serem beijos, envolvidos, os cheiros, vodka cranberry, licor de ananás, gelado a sabores de bolacha, cada beijo cheiro amor, cada gesto amor, cada gota amor

Lembro-me do beijo, de todos os beijos, lembro-me amor

Pedro

Equação


– Estás onde?
– Em X... Porquê?
– Nós estamos em Y, aguenta aí, vamos almoçar contigo!
– Doidos!
– Não é hoje que fazes Z? Parabéns! Chegamos às 2 e tal, esperas? Almoçamos contigo!

Há equações eternas. A amizade. O amor. E surpresas boas. Foi ontem. É hoje. Vai ser amanhã e sempre.

Pedro

2009-12-03

b&w


olhar
transviado
preto
acutilado
manchas
branco
rectângulo quadrado

Pedro
vê-se e recomenda-se

se soubesses


se soubesses
se soubesses

se soubesses o que és
água de outra sede
terra de um caminho
fogo no abraço quente
ar que a vida faz

se soubesses
se soubesses

Pedro

2009-11-30

à caça de raios e coriscos


parámos
para nos armarmos
caçadores
de coragem


aqui, em grande, eu digo soberba

Pedro

que problemas


chove
chuva que quase não é chuva
que se sentirá como
uma chuva quase não

terá a chuva problemas de identidade

Pedro

2009-11-29

esquerda ao contrário


- Ali, à direita.
- Ok, direita.
Em silêncio ocorre o contrário.
- Viraste à?
- Direita!?
O olhar incrédulo do contrário.

Por cruzamentos assim
que sejam só assim

Pedro

2009-11-28

passos


há passos nos caminhos
passos ao caminho
que passos
que caminho
que passos caminho

Pedro

2009-11-27

ser


um mais um quantos são
para lá do um e um que são

Pedro

2009-11-26

tempo


o tempo
nada
que é
tudo
o tempo
memória
que é
tudo

Pedro

tempo


no tempo escrevo
o que o tempo prova
da memória o tempo
de que outra memória

Pedro

2009-11-24

na margem do eu em ti


secos e molhados
de meandros os reflexos
caminhos beijos dados

Pedro

fire


don't light my fire
see the sky?
it's already on fire

Pedro

2009-11-20

sentes?


repete o acorde
tecla a tecla
refaz a nota
sincopa o sopro
uma oitava acima
até à oitava abaixo
suspende o sustenido
treme o bemol
tem-te ao ritmo
o ritmo
sentes?

Pedro

sem uma nota só


quero a minha palavra solta
como uma nota
vadia
sem canção
sem volta
só com ida
a palavra livre
de se entreter
enrodilhar
dedilhar
-te os cabelos

ah as palavras livres que te digo livres
enquanto pelos teus cabelos nos dedilhamos

Pedro

não há


não há amor como o primeiro amor verdadeiro
não há

é que não há

e essa certeza de não haver
é de saber como todos os amores anteriores
por mais verdadeiros
não foram de verdade

não há amor como o primeiro
não há
que o primeiro amor de verdade
sabe a mais que amor de verdade

Pedro

se


se o amor é ridículo
que as cartas são ridículas
deixa-me ser ridículo no amor por ti
ridículo a amar-te
tão ridículo aos olhos dos outros
que não sabem o que é amar

Pedro

2009-11-19

por todos os Skye a descobrir


travessias com chegadas
passagens e margens
partidas e reencontros
o ponto o longe o encontro

Pedro

beijo


um beijo
pétalas
de sonho

Pedro

2009-11-18

Amor


- É a ti que eu quero.
- O Amor é um acto voluntário, quero-te a ti.
Continuaram a amar-se.

Pedro

2009-11-17

recolector


recolho cacos pedaços de vidro
e cacos pedaços de vida
de quantos cacos a descoberta feita
de recolhas para um dia

Pedro
a propósito de "Les glaneurs et la glaneuse" de Agnès Varda

que rede


a rede pasta, o mail rizoma

queres trabalhar e esperas paciente
mesmo que infinitamente o aviso seja
um "Loading..." de tempo infindo
promessa de acesso instantâneo
quando se lembrar de acontecer

é irritante esta web mentirosa
começa-se-me a esgotar a pachorra

Pedro

viagem


navegar por ti
ir
do fundo que volto
viagem
em ti

Pedro

tu


o teu sorriso
o teu corpo
perco-me
afogo-me
regresso
incólume

Pedro

par



encontros são fortuitos
que fazemos acontecer

Pedro

mar da terra ária


num espaço que não é o tempo navegas à margem de uma terra vista entre memórias que o tempo flutua quando atravessas uma passada lenta um olá de sorriso entre novo e surpreendido o tempo suspenso faz-te o olhar

recordas o futuro que queres
o futuro
um barco de uma margem à outra pelo chão mar sem vento só o tempo de seguir em frente pelo adentro do olhar

Pedro

2009-11-16

janelas


o meu windows é tão empático
tão empático
que dá-me o sono
e ele crasha

Pedro

2009-11-15

μαιάνδρους


pelos meandros que vamos
encontramos o que vamos
descobrindo a descoberto
o valor que valores vamos
fazendo nascer do cálculo
ideia precisa aproximada
como pela infinita dízima
da circunferência pelo diâmetro
voltas desfeitas sinuosidades
de altos e baixos e mar chão
enredo que pede sequência
até onde a vida alcance
3.1415926535897932384626433

Pedro

pela noite que não era dia



segui-te
à janela
pela janela
segui-te
irrequieta
irrequieto o tempo
o movimento
segui-te
até ser dia
que o sol fez-te
que se fez

Pedro

a dia a dia em frente / vago o dia adiamento


quanta morte é precisa vida
que à vida se deixe a morte
ir seguindo seu pensamento
dia a dia vagamente

Pedro

palavra


digo a palavra mãe
sem sentir o que sinto
no limbo a mãe ser
no astro mãe limbo

Pedro

pois


faço o passo que sigo num desdigo ao sentido que enquanto o faço sigo o que faço dessentido

Pedro

era um gosto que não lembro


horas sem acordo
alimento a tempo
mais que para lá o espaço tempo

fosse o que era
o que era gosto
no tempo tempo esse suspenso

fluxo o ritmo
o corpo bomba
ferida passagem túnel natural

quanto aguentou
de morno a quente
da pressão o cordão umbilical

Pedro

um beijo


um beijo
e outro
outro ainda
e mais outro
porque um beijo
só um
sabe a pouco
mais que um

um beijo
e outro
mais beijos
é tão pouco
porque os beijos
tão só
são o pouco
de nós sós

Pedro

no tempo do som silêncio


quando o silêncio é
ouves mais o que é silêncio
quando o som é silêncio
o silêncio a ser som

Pedro

2009-11-12

quando eu era pequenino fazia um poeminha, agora quero ser grande e fazer um poemão


no uso da palavra
vez por outra penso
que abuso

há palavras
que palavras
tão bem deixadas em paz

ai que o uso da palavra
passava tão bem sem o abuso
do meu sentimentozinho
do meu sentimentozão
e variantes entre tão balalão

um dia quando for grande
quero ser uma palavra forte
ideia cheia segura e firme
como grave é a palavra muro

Pedro

2009-11-10

alergia alegria


um fio
fino
de voz

Pedro

2009-11-09

ILFORD


de entre o nevoeiro adenso
grânulos angulosos
do puxado revela o reverso
os poros luminosos

Pedro

coisas


de visita a Berlim do outro lado procurei uma recordação

já quase em desespero de causa vi a coisa, as coisas

ladies and gentleman,
as únicas, inigualáveis
inultrapassáveis, universais
as verdadeiras
bolas de Berlim



Pedro

2009-11-07

por um tempo aparente tão longe tão perto de tão bom


num tempo de que não sei o tempo
foste o que o tempo se fez
um tempo de ida passagem
a margem agora o lado
chegada a tempo feita
gosto a ver-te aqui
passos lado a lado

Pedro

por um caminho longo


o teu cheiro
o teu sorriso
o teu corpo
o céu bonito

as cores brilho
o tempo bom
brinde à vida
e beira-mar

Pedro

2009-11-06

quando o meu amor me fala e diz


diz-me as palavras que te ouço
arrebatadas
calmas
entrecortadas
respiradas
minhas as tuas palavras
que me dizes que te ouço

Pedro

hoje um dia cinza chuva


em dias assim
como este que se pinta cinzento
chego-me a um aconchego de café quente
num deixar ir que é quase morno
onde nasce um pensamento

a vida é mais do que a urgência
de não chegar à morte

Pedro

hoje dia assim de chuva


está cinzento o ar
o chão molhado reflecte
à janela difracto
pensamentos que penso

Pedro

hoje é dia meio de chuva


cai uma chuva miúda
espalha pingas na vidraça
arde um fogo na lareira
e em mim arde este fogo por ti miúda
que me sacia e acalma

Pedro

hoje a chuva nasceu assim


não pergunto
sequer questiono
dessa infinidade de gotas da chuva que me molha

porquê perguntar-me
da quantidade das letras
por algumas palavras que me jorram

Pedro

de brilhos intensos reflexos


brilhos
reflexos
serão fontes
amplexos

Pedro

2009-11-05

se te lembras foi no Continente


passas junto à criança
que olha para ti
o sorriso
feito
um brilho
que acompanhas
enquanto passas criança

Pedro

espelho


um espelho não mente
mostra o que os olhos vêem
o que a mente sente

Pedro

2009-11-04

eu


há notas que não ouço
quando me ouço diferente

Pedro

sono


parece-te bem, enrodilhado
pois a mim também
se for em ti

Pedro

quando


quando me enrodilho em ti é como se o tempo fosse só sem mais nada que o calor do teu corpo a que me chego me aconchego e adormeço sem saber que adormeço e acordo sem me lembrar de acordar e durmo num sossego de paz que me traz a paz que faz ao longo do sono do tempo do som respirado

é tão bom o sono enrodilhado

Pedro

tempo


quando aprendi a andar caminhei
quando aprendi a falar conversei
quando aprendi a pintar colori
quando aprendi a desenhar escrevi
quando aprendi os sons escrevi
quando aprendi as cores adocei
quando aprendi o eu fiz-me olhar

Pedro

2009-11-03

a janela


The Window, originally uploaded by Patiblue

a janela
aberta ao branco
colorida
fechada ao vento
aberta ao ar
a janela
aberta fechada
como um tempo
ido
que foi lamento

Pedro

2009-11-01

palavra


a palavra rolha
flutua
no sabor de que corrente

Pedro

2009-10-31

fotografia


amplio a imagem nítida
na memória lente
de foco saudade

Pedro

2009-10-30

fotografia


quando preto no branco
penso em ti
sonhos a cores

Pedro

2009-10-29

revelação


o banho morno
a tina cheia de meia
suavemente o embalo
do papel memória do tempo
revelas-te imagem
fotografia
que aos poucos te mostras
que imagem em mim
que imagem de ti

Pedro

a tarde a entardecer o dia


anoitece
entre a réstia do dia
feito dia até ser dia
a tarde a entardecer
o tempo de tarde
mais curto o dia

Pedro

2009-10-28

do passado interessa-me o que aprendo, ao futuro entrego-me e aprendo


quantas dores não sofri pelo que fui adentro no que me arrependi pelo que adentro deixei que fosse dor sem saber realmente se era dor pois como saber do desconhecido que só se sabe depois de aprendido

deixado o tempo e a distância correrem correram as águas pela ponte e abaixo dela ao longe a foz de mim em que desaguei enxuto de lágrimas de dores de pensamentos e temores de tudo que fiz à água que lavasse de tudo o que larguei além margens rio acima para lá do sol a nascente e quando me vi disse-me renascido pronto para renascer e devagar tão devagar fiz as margens serem o meu rio por onde naveguei livre pelo leito que me acolhe um peito quente vivo o peito da terra mãe eterna a vida que vivo vivo

Pedro

2009-10-26

no meu tempo


no meu tempo
quero um tempo em que um segundo é um segundo
no meu tempo
quero um tempo em que olhar-te é um olhar
no meu tempo
quero um tempo em que sorrir é sorrir-te
no meu tempo
quero um tempo em que passeio
no meu tempo
um passeio ao teu lado
no teu tempo
o meu

Pedro

2009-10-24

que palavra


entre letras ténue espaço
silêncios que pronuncio

quando me olhares os olhos
ouve o silêncio que digo

Pedro

que palavra


o encontro de letras
pela palavra
é como a vida do beijo

pelos lábios
súbitos húmidos desejos

Pedro

2009-10-22

pedaço pedacinho doce docinho quantos diminutivos com sabor a mais


um pedacinho
dois pedacinhos
mais um pouco de tempo de ti
um pedacinho
dois pedacinhos
mais um pouco de mim em ti

Pedro

partilhar


há partilhas que renascem quando partilhadas,
há partilhas renascidas partilhadas

se parece um estribilho, que seja, talvez seja,
mas é mais do que estribilho

há partilhas
que partilhadas
renascem
para lá do que se partilha
para lá do que se vive
para lá do que se pensa
para lá do que se sente

é que há partilhas
partilhadas
que são amor

Pedro

leve levemente como quem te beija assim


que peso tem o olhar com que me olhas,
o peso do meu olhar em ti?
o peso de uma almofada cheia de plumas
o peso de mil beijos nessas bochechas
mais o peso de carícias em cada uma

Pedro

por mais cinzento que o céu se pinte há sempre réstias e cores


a tristeza faz-me cinza
como se fosse azul
assim um estado blue
como sem norte nem sul

já o silêncio faz-me ouvir
os meus barulhos de dentro
que às vezes são ruído
e às vezes silêncio puro

Pedro

2009-10-20

entre passagem


imensidão tão imensa
como o longe ao fundo
sem do longe ser o fundo
sem no fundo ser longe

imensidão imensa
ao longe ao longe
que fundo ao longe
que fundo que fundo

Pedro

2009-10-19

oh espanto oh espanto!


oh espanto de beleza
esse sorriso de brilho
que o brilho ao teu lado
envergonha-se do teu brilho!

Pedro

quando estás de olhos quase fechados que não vês ou quase não vês


pé ante pé
devagarinho
lábios de beijo
mimo carinho

Pedro

um livro no início



uma página por escrever
com branco todas as cores
tempo para lá de ver
com tempo outras cores

Pedro

2009-10-12

sinto existo amo sinto existo amo-te


ah como é bom
sentir
do teu peito
afagos
como é bom
sentir
dos teus olhos
beijos
como é bom
sentir
nos teus lábios
sonhos
como é bom
sentir-te
em ti
amor

Pedro

dessas águas no caminho


um olhar regresso
regredido
como a ver o triste menino
no caminho à beira-mar
olhar do mar azul ao fundo
vindo do mar o azul profundo

caminhei em direcção a minha mãe
pelo caminho ao lado
apressado passo estugado
livre no tempo o regresso a passo

minha mãe que me pariu
labor de dor inundado
mundo luz espaço cortado
em que laço me fiz liberto

às águas me fiz não refeito
às águas o lanço sem efeito
o mar azul é povoado
de um só soluço afogado

areias marés correntes remos
marinheiro de mim navegado
chego-me o mundo atravessado a ti
anjo luminoso só infinitamente belo

Pedro

2009-10-11

quando quero ver fecho os olhos do olhar


não podes pretender ver com os olhos

iludem-te

cega-te a luz cega-te à luz
e segue a luz que não cegue

o olhar que vês é-te mais olhar
no olhar que vês dos olhos para lá do olhar

Pedro

se vou pela poesia é porque sou cego


não vejo
sou cego
apalpo palavras
como apalpo o vento
entre olhos que vejo
que não vejo olhos
na poesia desconfessos
o tempo regresso
do cego que fui
ao olhar regresso

Pedro

Paris


que Paris amo
como te amo a ti
que amo Paris
como te amo a ti
no intenso do belo
no perdido e belo
tempo em que te amo
como te amo em Paris
como te amo Paris
que te amo a ti
muito mais do que amo Paris

Pedro

ele há coisas que custam nada


recordo as agruras que passamos,
e antes também passámos,
a retocar o último detalhe que ultimo;
e já que falamos disto
lembras-te do que falámos?
no passado, que no presente falamos,
do intérprete que interprete,
ou que publica (de forma privada ou pública?)
o que quer que seja que ele musica,
música a gosto,
pois que no princípio,
umas linhas acima principio,
ou inicio nas linhas do início,
esta espécie de diálogo,
sem saber se dialogo,
para que possamos
sim, possamos, (póssamos não existe),
para que nos possamos
entender, ou quem sabe,
dialogar

não custa nada
é só um acento
um singelo traço só
que faz a diferença
para não se falar só...

Pedro

achegas:
passámos passamos
último ultimo
falámos falamos
intérprete interprete
pública publica
música musica
princípio principio
início inicio
diálogo dialogo
quem quiser que continue a lista...

também dou erros, ai se os dou, e tento não dar; a ouvir e a ler o que se vai escrevendo tento perceber... às vezes é difícil; eu só quero ler e perceber... às vezes é difícil

2009-10-10

a minha voz a tua voz


uma outra
duas
fugazes
palavras
curtas breves
eternas
amor
amor

Pedro

câmara escura fotografia do sentir


em que superfície fixar
as emoções que evocas
senão na tua pele
as imagens que revelamos
o olhar
pálpebras em repouso
a deixar-nos ver
tudo o que sentimos

Pedro

no lento que o tempo é a água mar do tempo mor


quando te afastas de mim há de ti que fica em mim
partículas
partes
pensamentos
instantes
a marulhar-me
a ir-me adentro
até à areia molhada
até à rocha rolada
até à parede falésia
formas diferentes de pedra
pedra a pedra construção
amor

quando te afastas de mim há de ti que fica em mim
que te quero
mais
tu
eu
ser
querer
amor

Pedro

2009-10-09

a pele o rosto o corpo do teu corpo


a pele da mão na pele de todo o corpo que pele é que toca as mãos
os dedos entretecidos por entre filigranas cabelos pestanas anhidamente lábios labialmente próximos do sussurro entre entre
a pele ao de leve

Pedro

mais cedo que tarde


mais cedo que tarde
a folha do livro passa
e a palavra que passa
fica

mais cedo que tarde
a folha transalpina
a folha franciscana
fica

mais cedo que tarde
a saudade à tarde
a vida da tarde
fica

mais cedo que tarde
a febre vai cede
o sorriso breve
fica

mais cedo que tarde
a palavra folha
o vento que passa
fica

Pedro

entre o tempo de um raio de luz


ir por onde
na cor
de um raio de luz
que leve
que traga
a luz de que nasci
onde nasci por aí

nasci por aí
um dia
que fui por aí
a ver que nasci
a ver o aí

estranho
porque nasci aí
que nasci
vivi aí
ai que aí
em que aí não vivi

ir por onde
na cor
de um raio de luz
que aí só
vivi aí
por onde por onde vivi aí

Pedro

2009-10-08

do teu sentido que em mim encontro


todo o teu corpo
início
de fonte
a fonte princípio
espaço letra tempo
da palavra sentido

Pedro

um minuto dois mais minutos todos um a um dois dois minutos mais


olha a palavra que digo no suspiro
breve
curto
tão curto
mais curto que os gemidos
breve
entra
escreve
relê
entre a sensação
prazer
de fazer
ter
gemidos suspiro olha breve

Pedro

sirva-se prove deleite-se comove


é plano
estaticamente
plano
dinâmico
estar,
sirva plano
sirva estar
uma colher e prove

a mulher abre os olhos
devagar
diz nos olhos tudo
e lêem olhos gulosos
o que os olhos dizem tudo

Pedro

de uma noite chegada de início madrugada


a noite passa devagar
entrecortada
por um som estridente
o meio da madrugada

à noite é noite
dorme
brisa
beija o vento que dorme

Pedro

só os lábios nos lábios a respirar enquanto os lábios se tocam


lábios
pele
dedos
mãos,
olhos
orelhas
pescoço
queixo,
peito
colo
umbigo
coxas,
devagar
devagar
devagar
devagar

Pedro

2009-10-07

há alturas em que releio para perder-me encontrado


no que me releio
perco-me

não na memória
não na solidão
não no percurso
da memória

no que me releio
perco-me
pelo caminho
que fiz
que me lembro
de fazer

perco-me
pelo caminho
consciente
que escolhi fazer
feliz porque o fiz
contente porque o fiz
desperdido onde me fiz

Pedro

para um b a bá que não sei o que seja


o sincopado
da palavra
sincopado
faz o ritmo sincopado

que outras palavras
sincopadas
têm ritmo
sincopado
sem serem
sincopadas
parecendo
sincopadas
então sendo
sincopadas
devolutas
sincopadas
renascendo
sincopadas
palavras e mais palavras
a ir e vir
sincopadamente
ritmadas

Pedro

por palavras do olhar


ontem dei uma aula que me soube bem; disciplina (agora diz-se Unidade Curricular) de "som e vídeo para multimédia"; procuro centrar-me na forma de criar conteúdo bom, que a técnica e a tecnologia estejam ao serviço do conteúdo, não o inverso; procuro que o conteúdo seja a prioridade; que conteúdo? o conteúdo universal, a emoção; e por onde anda a emoção no audiovisual? qual o suporte? os olhos, a expressão do olhar; utilizei um vídeo como núcleo da aula, gravei-o da RTP2, chamado "What do Editors do?", escrito por Mark Jonathan Harris, realizado por Wendy Apple; uma delícia; sobre montagem e o que fazem os montadores, com intervenções de Jodie Foster, Spielberg, Zemeckis, Scorsese, Ridley Scott e outros, e uma série infindável e excelente de montadores; com exemplos de Lumière, Edison, Edwin Porter, Dziga Vertov, D.W. Griffith, Eisenstein, uma maravilha de ver e ouvir, analisar, apreciar e pensar... um montador diz "montar é gerir os olhares", outro diz "montar é criar ritmo", outro diz "montar é narrar", outro diz "montar é fazer viver a emoção"

a determinada altura passam este pedaço de monólogo de "Kundun", 1997, escrito por Melissa Mathison e dirigido por Martin Scorsese:

"First, one understands he causes much of his own suffering needlessly.
Second, he looks for the reasons for this in his own life; to look is to have confidence in one's own ability to end the suffering.
Finally, a wish arises to find a path to peace. For all beings desire happiness, all wish to find the pure selfs."

e este monólogo faz-me pensar no livro "O Caminho Menos Percorrido" de Scott Peck

no mesmo DVD tenho gravado um outro programa, sobre Herberto Helder; Paula Morão diz "... porque lendo em voz alta nós percebemos como os textos têm um ritmo que é muito próximo dos movimentos do coração, sístole, diástole, o movimento semelhante ao movimento pulsional das marés", e a voz of lê, de Herberto Helder:

"Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais
dá à pata nos pedais para um verão interior."


ritmo, pulsar, olhar, poesia, emoção
está tudo universalmente onde se viva
se queira ver
ser-se capaz

não sei se é coincidência que no mesmo DVD eu tenha colocado o programa sobre montagem e o programa sobre Herberto Helder; sei que estão muito bem

gosto de dar aulas onde aprendo
gostei muito da minha aula de ontem

Pedro

2009-10-06

caminhos


o caminho que percorri
não o conheço
tenho memórias várias
tanto mais vagas
ou firmes
como essa vaga firmeza
conhecida
de ser o caminho percorrido
uma lembrança refeita

à memória peço esforço
se quero saber o caminho percorrido
esse esforço é sofrido,
tem o preço do crescimento

e não sei para onde vou
mesmo sabendo o que quero
sei para onde não vou
porque sei o que quero

Pedro

2009-10-05

shopping lady histerya

shopping lady histerya
click na imagem para ver em grande


ideia da minha filha Susana, desenho do meu filho Eduardo
um trabalho colaborativo, pois então
:-)

Pedro

2009-10-04

uma palavra no tempo e som de ser


da palavra
o tempo
o som
do espaço
o tempo
o som
no tempo
o som
com tempo e só
ser o som
dos teus lábios a dizer-me
amor

Pedro

2009-10-03

um beijo corre quilómetros e chega num instante mas à distância deste beijo de quantos beijos se ressente a saudade?


os teus beijos
meus preferidos
são todos
perto pertinho
ao sol
à sombra
a língua dentro
bem funda em ti
nos lábios
no rosto
nos olhos
pescoço
ombros
braços
pernas
sexo
os meus beijos todos em ti
os teus beijos todos em mim
ah que bons os beijos
que em ti
de ti
me fazem
tantos beijos

Pedro

2009-10-01

de todos os beijos os que prefiro são todos


há os beijos longos
os beijos húmidos
encorpados

há os beijos tontos
os beijos risos
gargalhados

há os beijos todos
os beijos tudo
saudade

Pedro

2009-09-26

por todos os beijos os beijos todos


dos beijos todos que demos
perdi-me completo por inteiro
no beijo pelo olhar que demos

Pedro

2009-09-25

do Universo navegantes


enviamos naves à lua a Marte aos planetas e para lá
com universos sem fim no corpo do amor

só pode ser cegueira
vontade de não viver
o aqui agora
real palpável
sem fim

por mim já sou astronauta
estratosfera que respiro
em ti o Bing Bang que descubro

Pedro

quando me encontro em ti que me encontro te encontro


se procurasse alguma forma de ter
essa sensação próxima de descrever
o que é o que seja o sentir
de sentir-te e ser nesse sentir...
que palavras seriam
que servissem o dizer...
só me lembro de palavras de silêncio
de lábios boca garganta em rouquidão
explosivamente incapazes de palavras

como me encontro a ver-te
os olhos a expressão a boca
o teu estado
o encontro
a entrega
inteira
não há sim
não há não
há tudo

Pedro

reflexos

reflexos


por reflexos que te levam
para além do reflexo
que reflexos
pensas
que reflectes
por distâncias
e pensamentos
no tempo que passa
que não fica
que passa e fica
o tempo que me ficas
tanto que me ficas
a memória invadida
a memória
sem ter dela
o tempo da partida

chegas
o mundo acabou
chegas
sabes ao mundo que chegou

Pedro

2009-09-24

Susana



nasceste como é que nasceste
que te vi crescer como nasceste
um raio de luz que cresceste
um olhar que amanheceste
um sol que te fizeste
o tempo tão curto que cresceste
como é que cresceste que cresceste
eu a ver-te a ver-te nascer
seta flecha o arco da partida
dessa ida britânica a ilha
vida nova nova vida
o tempo voa Susana o tempo voa
e um dia Bruxelas Lisboa
e um dia Londres Lisboa
o tempo voa o tempo voa

Pedro

2009-09-23

pelos teus dedos que me guio

pelos teus dedos que me guio


é bom tocar-te
os dedos as mãos
a pele
tocar-te
ao de leve
tocar-te
tanto
beijar-te
desejar com força nesta força nesta força
amor sexo amor amor
amor que me louco deixas sou

Pedro

pelo céu e pela terra

pelo céu e pela terra


singularmente
reflexos
repara como o céu se prepara
para receber da terra
do verde impregne
o verde
vida
que o sol aquece no dia
a dia
a vida que à noite adormece
o dia
que amanhã aquece

a terra é só uma
o céu um só
tu e eu um
que um um só

Pedro

de um olhar que me vê, vês?


se olhares pela janela não te espantes
não sou eu
são os teus olhos que me vêem

Pedro

tempo de Outono


o tempo de Outono tem assim uns tons e cores diferentes
intermédios
mornos e quentes
no compasso do frio

Pedro

2009-09-21

outono


a primeira vez que notei a cor de Outono foi há muito tempo, parece uma eternidade, estava no Porto, tinha seguido para Espinho, para o Cinanima, dado boleia à Luísa, que aproveitou para dar um pulo ao Porto para trazer coisas de casa para Lisboa, pediu-me se podíamos passar no Porto, aquiesci, fomos, e numa avenida qualquer ela mostrou-me a cor das folhas das árvores e disse olha que bonito estas cores de Outono e pela minha expressão ela viu que eu não via e disse-me tu não ligas muito a isto pois não e eu devo ter dito que não, lembro-me de ter dito que não, e desde esse tempo até agora passou um tempo imenso, parece uma eternidade, e a luz de Outono, as cores de Outono, vejo-as, e à janela, ontem, ao fim da tarde, disse em voz alta, olha-me esta luz, e repeti, olha-me esta luz, uma luz que não sei o que tem, é hipnótica, tem uma beleza muito particular, da minha janela vê-se uma colina e alguns prédios pela colina acima, e a luz reflecte-se nas janelas, às vezes vem directa do sol a mim e entra-me adentro pelo quarto e não sei se por mim

que luz vejo hoje é uma luz diferente
que a luz pode ser que seja igual
que os olhos pode ser que sejam diferentes

Pedro

2009-09-19

sonos


o sono é bom, é como acordar, é como viver, bocejar a boca aberta e ronronar, como ronronamos todos, de sono, de bom, de preguiça, de estar, de ver, luz, a invadir, a janela, a parede, a cama, os lençóis, as almofadas, e o calor da luz é morno, como o morno nos lençóis devagar a misturar-se com o morno da luz, e a sentir a luz a beijar-te a pele por entre beijos pequenos, os melhores beijos do mundo são pequenos beijos no canto dos lábios, música, os melhores beijos do mundo são beijos pequenos que sabem a música, ao ritmo compasso a ouvir sem ouvir o bater do coração, sem ouvir, síncronos, o bater o bater do coração do coração

Pedro

dormir contigo ao lado


sentir-te o corpo
sentir-te o corpo quente
no respirar suave que te embala
morno no sono quente
sentir-te o corpo

Pedro

2009-09-18

à janela de um tempo

à janela de um tempo


foi à janela que viste?
o quê
que viste
à janela de uma noite
uma noite entre
tantas
que noites

Pedro

2009-09-17

tempo

tempo


um tempo medonho
medonho

Pedro

2009-09-16

linhas e geometrias



linhas
geometrias
que mais linhas
geométricas
linhas
geometrias

Pedro

2009-09-15

chocolate canela café


com que chocolate
com que canela
com que café
te entretenho
que te tenho
que nos entretemos
em chocolate
canela
café
depois da manhã
da tarde
da noite
e quantas mais manhãs
das noites amanhã

e quadrados de bolo
e doce de cereja
e doce de figo
em pão de centeio

Pedro

2009-09-12

acontecer


tu aconteceste, sabes?
não sei como
como foi
como tenha sido

aconteceste

tu aconteceste
sabes?
como sabes?
eu não sei
e não será para saber

sei que é
que aconteceste
e que vivo

Pedro

subitamente


e subitamente
na curva da vida
ela apareceu
e disse

PS: Nice seeing you here :)

- Likewise, nice seeing you here

e a felicidade aconteceu

Pedro

2009-09-05

por um olhar


por um olhar adentro
que janelas visíveis visionas
por um olhar adentro
paisagens abertas janelas longas

Pedro

2009-09-04

pela paisagem de um sol nascente


sentimentos
nus
palavras
despidas
visivelmente
entregues

Pedro

longe


estar longe
é uma seca
tão seco
como um deserto

Pedro

2009-09-03

um ser eu


o ser eu
que é tudo
é tudo ser
é ser tudo
que ser eu
é ser o eu
do ser eu
o ser mundo

Pedro

que fazer com este estar por acontecer


Estou à espera do efeito do café. Que se faça sentir esse estado desperto. Que preciso dele neste deserto desterro enterrado. Não completamente completo. Mas lento e afastado de tudo o que é existência a que estou habituado. Para o pão tenho que me meter no carro. Para o almoço, carro. Para o jantar, carro. As pernas não chegam. E agora, a usar o portátil nesta rede, net, lenta e mais que lenta em sintonia com o local, descubro que todas as partes cromadas, poucas, expostas do portátil, se lhes toco com a ponta dos dedos levo um senhor choque eléctrico... Isto é lento e, nessa lentidão, adormecente... Para não se correr o risco de adormecer, a rede eléctrica está mal instalada e prega-nos arrepios de acordar, arrepios modernos, electrizantes, que isto aqui sendo antigo e lento, recorre ao moderno electrão para uma terapia de choque: acorde

Pedro

2009-09-01

going and returning from gone


gone
not forever
not forever
gone
the journey
born
the journey
reborn

Pedro

olha a forma que formo quando te vejo inteira que é sempre como te vejo tão inteira que me preenches


de todos os passos que dei
de todos os passos que dou
em todos os passos que serei
há um passo em que sou
o que já fui
o que serei
um eu feito escultura
forma filigrana entretecida
a luz a sombra e penumbra
entre brilho de clara a escura
a forma mais completa de mim
o brilho de um sorriso em mim

Pedro

2009-08-30

de estar e ser bom


é bom estar
é bom ser
é bom viver

Pedro

2009-08-29

carta


uma carta de amor
é um poema
com todo o amor
que nele contenha

Pedro

como não escrever em ti palavras de amor se te amo tanto que não sei como amo


escrevo-te o corpo que sinto
o sentimento que sinto
o sentir que sinto
escrevo

Pedro

uma carta de amor de um tamanho único (que é um tamanho imenso) como único o amor do amor que escrevo


escrevo com amor
uma carta de amor
ao meu amor
que escrevo, amor
com muito amor
estas linhas
palavras
estas palavras
uma carta?
esta coisa dita
como as palavras
ditas
com mais do que sentimento
com sentimento
amor
de quem sente
amor
nas palavras sentidas
palavras
consentidas
nos actos
nos olhares
ditongos
vagares
no despir
da palavra
cada sonolência
do corpo
entregue e ais
gemidos e ais
e huns e huns
no teu corpo
mais
no meu corpo
mais
palavras palavras
todas as palavras
que não ouço que gemo
entre palavras
que entrego
o tempo de todas
e todas as palavras
por entre palavras
o tempo que quero

Pedro

amor


amor carne
amor mente
amor louco
amor demente

Pedro

2009-08-28

quando a espera é espera que foi


quando menos esperas
alcanças

Pedro

carta ao meu amor


o que mais fixo em ti?

o que mais fixo em ti é o espírito, a graça, o sorriso, o riso,
e que a isso juntes um físico de espanto
ah sorte de espanto
que me espanto no espanto da sorte de tanto

o que mais fixo em ti é o amor, amor,
o amor de amar, de amar desse modo, a entrega amor,
o amar inteira o amor de entrega, o amor devagar, amar depressa

o que mais fixo em ti é o olhar, que diz sem perguntas,
que olha fixa e vê, o olhar de amor no olhar de amor

o que mais fixo em ti é o reflexo de mim,
a cor que sou no reflexo de mim,
na cor dos teus olhos a cor do teu olhar

que mais te amo? o que mais fixo em ti
que te amo mais

Pedro

o meu vizinho


a sua grande infelicidade
no seu pequeno carro
o meu vizinho arrasta sombras
num saco cheio e pesado
tão grande no cenho carregado
segue cedo para o trabalho
dia longo inteiro ensombrado

Pedro

sinais



no fim o verão
início o outono
que outonos virão
que inícios verão

Pedro

quando o tempo passa e finalmente


ontem queria o mundo

hoje quero-me a mim

hoje quero-te a ti

com 5 queria o mundo
no décuplo querermo-nos

Pedro

de um sincero aniversário


Não faço anos hoje, já fiz, é passado, estão feitos, para o ano há mais; e mais anos para o ano também, espera-se.

Este ano, inesperado, dos costumeiros sem falhas, silêncios;
este ano, inesperado, variados e vários mensageiros inesperados.

Não resisto a esta... É-me deliciosa. Não sei se o Luís anda por aqui. Sei que gostei da mensagem. Sei que gostei do que me meti na resposta. Que há respostas automáticas, respostas pessoais, respostas entregues, respostas intestinais.

Ah carago que gosto deste gosto de estar, ah carago que gosto de me estar, ah carago que gosto de gostar

Costumo dizer que não sou Português, há muita coisa que não entendo, e vernáculos que não domino; não é mania nem peneira, é facto; e de facto nem sei se carago é vernáculo, mas ah carago como o ser vivo é bom de facto!

Aqui vai o texto, resposta ao Luís:

> Olá Pedro
>
> Tanto quanto sei, fazes anos hoje. Infelizmente, com o excesso de
> informação indiscriminadamente de boa e de má qualidade, nunca
> se sabe.
>
> Se fazes anos, desejo-te felicidades
>
> Parabéns
>
> -- Luis

Tanto quanto sei estás correcto :-)
foram 50 que já cá cantam, não escapam nem fogem
nem os quero em sumiço que me souberam bem
para me fazer rijo (isso) prós mais 50 que lá vêm

:-)

Pedro

numa margem sentado à beira do rio que não chorei



guardador de margens
caminhos
vagos
vamos

guardador de viagens
trânsitos
estados
gritamos

guardador de dentros
pensamentos
idos
antanhos

guardador de um eu
de um espaço
um dentro
um tu

guardador do rio
que passa
que faço
que vive

rio que guardas
memórias
rebanhos
estranhos

rio que passas
que lavas
que lavas
que rio

rio que passas
que lavas
que rio
que rio

Pedro

2009-08-27

tempo


o tempo distante a cada instante
o tempo
tempo constante
o tempo
curto o segundo
longo o segundo
do tempo instante do tempo constante
o tempo que passa
o tempo que pára
a ver passar o tempo que passa

voa tempo regresso
voa tempo de inferno
voa tempo tempo voa
foge tempo
faz-te à vida faz-te à estrada
tempo foge
desfaz-te contra o mar
desfaz-te contra o ar
faz-te tempo tempo presente
tempo!
vê se aprendes a passar

Pedro

2009-08-26

luar


de mãos dadas
o luar a espreitar-nos os beijos
ah como quero esse tempo
de estar e a lua a espreitar

Pedro

little window



por uma janela pequena
vi-te, pequena
ah vi-te
e nisso a janela
e tu, pequena
pela janela pequena
ah pequena
vivo-te mundo grande

Pedro

nuvem passageira



– Deixa-me colocar um pedacinho de nuvem minha no teu céu

E a fertilidade aconteceu

Pedro

oh this simple thing


there's a quest
so simple
how to simply say
to say it simple
in the simplest way?

ah the simple quest so difficult
as all simple things
are not so simple at all
they are the hardest things
the hardest things of all

how to
say it
in the simplest way
the way you feel this way?

one way, is this the way
may be just to say
saying it in this way
this simple way to say:

my love I love
I love my love

Pedro

tempo


anda a caminhada
o eu regresso
retomo o tempo
o tempo agora

ah o tempo

o tempo nosso
o tempo novo
o tempo nosso
que te peço

Pedro

à memória do futuro memória no tempo futuro


a vida retoma-se
vestalmente
sal da vida
temporal

de feição à feição
do furacão acalmado
a vida retoma-se
finalmente
virgem do tempo
carnal

Pedro

vida e amo


amo a vida que me trouxe aqui
amo a vida que me trouxe
amo a vida
amo

Pedro

gero a geratriz que giro e gero que gero que giro que giro que gero


o fruto gera a flor?
a flor gera o fruto?
no ventre o fruto dessa flor
no verso a flor do fruto em flor

Pedro

de um fruto flor de um fruto em flor


como no doce de frutos vermelhos
tão vermelhos
quanto doce o doce é
que me és tão doce
que me és
tão
doce
que me és tão doce

saboreio
sinto
volto
sinto

saudades
que sinto
que sinto mais
tanto mais saudades que sinto

Pedro

olhar



que olhar que olhar
que olhar é o meu
de entre a sombra
de entre o olhar
de entre a sombra do olhar

Pedro

2009-08-25

marinheiro marinheiro onde anda o teu mar


onde anda a bússola
que perdi-te norte
não te perdi norte
tenho-te dentro norte
que não há perdição
norte maior
não há
que este marinheiro de ti
este marinheiro de si

Pedro

sim


sim
é uma cascata
íngreme

o que me fazes

continua
e lê

a cascata
que fazes
me fazes
ai!

que gosto
de cair
assim
das alturas
por entre
entre
letras
loucas
todas
por ti
por mim
nós
enroladas
as letras
nós

Pedro

ergo-te champagne vida vermelho cor de morango


no sopé do meu pé
eu montanha de mim
ego para lá do ego
a água fria toca-me
e desço devagar lentamente
à areia a minha praia
para um sol luminoso
um dia começado
para luares e nascimentos
de um dia depois do outro

este já é mais do que o primeiro
dos dias das nossas vidas
pela vida e à vida
morangos e champagne

Pedro

de louco de vivo de morto e renascido todos temos um pouco e uns bem mais que esse pouco


he pá
hás-de reparar que enlouqueço
muito rapidamente
tão rapidamente
que enlouqueço
que não me revejo
a cada reflexo fugidio
da cor do meu reflexo
de que cor é o meu
reflexo
ah como reflexo o reflexo este
reflexo amor
como o amor mata e consente
que se mate lentamente
de amor o amor ausente
o amor que cresce e se abandona
e consente
e vive
e revive
que a vida seja enormememte
tão enormemente como vive
amor verve amor verve
amor vero verve amor

ah caraças de coisa esta que me matas amor
vês que me matas?
revive-me
renasce-me
que te vivo
inteiro
que te renasço
te alcanço
entre aqui
e um instante

ah amor
como vivo como vivo

Pedro

fui ao doutor das doenças e ele disse-me desembrulhe-se desenmerde-se que isso é - não vou dizer o que é aqui no título, pois não?! ora


tem que ser doença neuronal
tem que ser
doutor
veja faça
analise
teste afinal
é doença, doutor?
de que padeço que tal?
não
como não
se é
só pode
só pode
doutor
veja lá
como se pode escrever tal
assim
oiça
já os títulos se me escapam
até os títulos se me fogem
não faço nada das letras
fico c'os olhos aos molhos
veja lá doutor
veja
que não controlo
que doença doutor
doença
paz?!
de amor?!!
mas oh doutor ...
diagnóstico? ...
por favor ...
p'ra entender ...
doutor!

Pedro

ah que fogo me fogo há no fogo que fogo fogo há


um fogo
que é este
é um fogo
que fogo
entre lava
furacão
entre alva
dimensão
o fogo ilusão
concreto coração

Pedro

saudades de ti


saudades de Paris
saudades de Veneza
saudades da Escócia
saudades de ti
o espaço de todos os lugares
espaço infinito
espaço de vida
infinito o lugar da vida amor

Pedro

caminhada caminhada caminho acompanhada


um passo um passo
só mais um passo
só mais um esse passo
mais um passo mais um passo
que sobe o caminho
_ o pó sem calçada
sobe que sobe
_ íngreme caminhada
sobe tanto tanto longe
sobe a pique sobe só
sobe não só a caminhada
sobe as penas largas pó
do pó que largas das sandálias
sabe o pó que desmemória
por entre o pó que te vejo
só vejo passos de acompanhada

Pedro

de um pó que se alevanta caminhada infinita


da poeira a que regresso
entre poeira que caminho
da poeira do regresso
do pó feita poeira inteira

Pedro

de lá de longe de tão longe


no seco poisio que me encontro
entre trânsitos penosos
do sol que nasce no deserto
no horizonte a humidade cresce

Pedro

chuva


deve ser isto chuva
gota a gota palavras
linhas entrelaçadas
água letras enxurradas

Pedro

vida


quero consumar
como me consumo
para lá de concreto desejo
viva vida isto inteira

Pedro

ar terra água fogo


olha o ar que toca o céu
olha a terra que te caminha
a água que te inunda
do fogo que te consuma

Pedro

água


que água
me mata
mais a sede
que mata

Pedro

ar


que ar
o ar
de ser
respirar

Pedro

terra


que terra
é terra
de caminhar
e viver

Pedro

fogo


que fogo
é o fogo
que arde
e se vê

Pedro

2009-08-24

tempestade no canal


dessa tempestade no canal
amor
quero as tuas vagas
amor
ah quero o teu canal

Pedro

e eu


ai caraças
que a cada vez
gosto mais de ser quem sou

Pedro

pai e filho


Ontem chegámos tarde do cinema, e jantados, ele diz:

– Estou contente. Gosto de ser quem sou...

– O que disseste?!

– Gosto de ser o Eduardo. And if you don't like it you can go to hell...

Fiz-lhe um silêncio breve num breve sorriso, para a seguir dizer o que ele e a irmã já me gozam:

– Tens doze anos e já sabes mais que muitos adultos...

E sorrisos risos.

Pedro

pai e filha


Depois de uma conversa boa, em fim de tarde, na esplanada do Saisa em decrepitude, Santo Amaro de Oeiras, sobre a areia da praia:

– Cada vez gosto mais de ser teu pai... – disse eu

– Vou dizer uma coisa engraçada... – disse ela. – Eu cada vez gosto mais de ser eu...

E sorrisos risos.

Leonor



ah como vai cândida e formosa
pelo branco da avenida
Leonor tão bonita
rosa pétalas bela a flor florida

Pedro

de uma estátua em transe


sou o teu mármore
que o teu limão derrete

Pedro

desejos


um bom duche
que eu duche bom

Pedro

cozinhados


ai que desforra de mimo
e caldo associado

Pedro

amor


se possível
perguntava-me
como seria

agora sei
que vou sabendo
e sabe bem

Pedro

um relance de ler ler-te ter-te ser-te te ser


leio-te em mim, amor, leio-te
ah como te leio que quero ler tanto

Pedro

beijo


um beijo meu
que te dou
um beijo meu amor
ai dou-to

Pedro

2009-08-23

o teu brilho meu amor cega-me completamente


reparaste
certamente
como me cegas
docemente
tão definitivamente
intensamente
como reparaste
certamente
que me cegas
meu amor
devagar
lentamente

Pedro

das crianças em nós


ser pequeno em grande
é ser tão grande
é ser maior
é ser
é-se

Pedro

2009-08-22

pi


quando o valor de PI é 3
ele é tão mais que 3
como é o valor de PI
3.141592653589
e muito mais muito mais
na dízima infinita não periódica
um valor a números sem fim

Pedro

2009-08-21

declaração


não gosto de pontuação
não
não gosto de pontuação
pois não não gosto
não
gosto de pontuação
gosto
que gosto mesmo
a gosto
de pontuação
pois gosto
gosto
de pontuação
a gosto
a gosto
de pontuação com efeito

Pedro

no relance de um beijo


o teu amor eu
meu amor
ama-te inteiro
e dá-se-te todo
amor, todo!
como no primeiro beijo

Pedro

amor


às mulheres que me amam
eu digo obrigado
à mulher que eu amo
eu digo
tanto
obrigado

meu amor
amo-te
tanto
obrigado

Pedro

2009-08-20

anos


estes anos que vão passando
não pesam
vão pesando
não lhes sinto o peso
vou sentindo

deve ser disso
este cansaço
que não sinto

Pedro

2009-08-19

And where is the wine??



Olá Flavio e Gina

o vinho está no comemorar o encontro de amigos e amizades
vinho espesso líquido tinto encorpado
como as amizades boas dos corações
fortes envolvidas entregues vividas
entre vinhos bons
entre vidas boas

um obrigado tão grande meu
deste lado do lago
para esse lado do lago
numa ponte boa
um forte abraço
copo cheio de bom vinho
selo e bebo, alegria, à amizade

longo e forte abraço do
Pedro

como te vou


vou pela poesia
como vou pelo teu corpo
vou
vou
poesia o teu corpo
poeta amor
amor em ti
tu
meu amor

Pedro

sabores 2 sabores que 2 sabores a 2



café preto amargo
com canela

compota firme
de frutos vermelhos

combinação sublime
estado perfeito

deve saber assim
o sabor do amor


Pedro

2009-08-18

foi a festa pá


gostei da festa pá
estou contente
do sabor novo nos olhos
como sabor de Abril

Pedro

sabores



Pedro

diamantes


amantes de dia
amantes à noite
os dias dos amantes
são dias diamantes

Pedro

diamantes


um diamante diamante
brilha diamante
que brilho diamante
diamante diamante

Pedro

2009-08-17

answer


que não seja a resposta verbalizada
por demais adivinhada
que uma alma que se dê
deixa de ser alma que se dá
é para lá da alma que lê
ser uno na alma alcançada

Pedro

alma


de uma alma que se dê
quanto tempo
quanto se dá
a alma no tempo
alma o eterno tempo

Pedro

2009-08-16

circo círculo


a vida não é um circo
a vida é um círculo
cada um adaptado
ao comprimento do seu raio

ao dia que assumes
o que venha de encontro
desforça em descoberta
nesse dia descírculo
o fio do raio parte
desfilada trajectória
perímetro abandonada

bom dia vida minha
que sei que dormiste bem
bem vinda minha vida
tempo nosso descobertas

Pedro

2009-08-15

procuro procura procuro


- Viu por aqui, o que procuro eu?, viu por aqui, ai ui, que procuro?, viu, viu por aqui?
- Não sei o que vi, o que procura, não sei, que procura?
- Viu, não sei, não sei, que procura, que procura, não sei... Viu?
- Vi, vi a luz do sol, tão banal, como dizer que não é banal, vi, vi a luz, viu?
- Vi, vi a luz, natural, vi a luz, vi o sol, vi o brilho, vi luz, vi, que procuro, viu?

Pedro

tempo


não sei do tempo
não sei
perco-me
sem tempo
no tempo
não sei
que tempo
que tempo
onde
que tempo
que me perco
onde

Pedro

sending


I'm sending a kiss
a very gentle one
so gentle the kiss
you know
this is the one

Pedro

luz



não sei quando escrevi isto
mas ontem foi o caso em que se aplicou inteiramente

Pedro

2009-08-14

de luz de sombra de penumbra da fotografia


há um espanto que se constrói no dia a dia de descobertas

luz
sombra
penumbra
da fotografia
ângulo a ângulo
vista a vista nova
da vista nova o espanto
olhar entre espaços
na fotografia
penumbra
sombra
luz

olhe-se pela ocular
o que a lente enquadra

faça-se o click exacto
do que o olhar faça

tenha-se o cuidado extremo
da delicadeza no olhar

entre-se pela luz no espaço
devagar o olhar devagar


há paisagens que de tão bonitas
são início de viagens
há passagens que em imagens
fazem o tempo parar


Pedro

2009-08-13

mundo



mal se tocam
a caixa da madeira com cheiro
a pedra com terra
o fruto de mil frutos

mal se tocam
de tão perto

sabem da separação que os une

mal se tocam
e o nada que se tocam
são as pontes de futuro

Pedro

tempo


o tempo que parte
o tempo que chega
não sei se são
o mesmo tempo

sei
que o tempo que parte
que o tempo que chega
são um tempo
o tempo que vivo

Pedro

2009-08-12

reciprocidade


ninguém faz pelo outro
o que o outro não faz por si

a questão não é
se te faço feliz
se me fazes feliz

se sou feliz
comigo
em mim
sou feliz
contigo
em ti

se és feliz
contigo
em ti
és feliz
comigo
em mim

felicidade é o estado feliz
do (estar) ser feliz em reciprocidade

ser é mais longo
que estar
ser é a eternidade


quando encontrar o ser
desta reciprocidade
nesse por com esse ser
a certeza de ser feliz


Pedro

de um espaço de tempo entre o tempo



acordada a construção
espaço intemporal
tempo fenomenal
tempo inteiro
universal

há universos no mais pequeno
infinitesimal
espaço
que se revelam
à análise poética essencial

Pedro

2009-08-11

o melhor beijo


tantos beijos num beijo só longamente só acompanhado

Pedro

2009-08-09

estado


felicidade é o estado feliz
do ser feliz em reciprocidade

Pedro

2009-08-08

momentos


há momentos em que um raio de sol não é só um raio de sol
há momentos em que um luar não é só um luar
há momentos em que a luz é o universo
e de dois se fazer uni o verso

Pedro

2009-08-07

Le petit prince


estou a reler o "Le petit prince", em Francês
o livro por onde comecei a aprender Francês

é tão extraordinariamente bonito
infantil no que tem de mais profundo
porque no fundo no fundo
somos poesia pura
no coração de criança
enquanto a criança não sufoca
do adulto que sufoca

ser criança
é como o adulto sobrevive
quando aprende a viver
a criança dentro livre

Pedro

2009-08-05

terra ar água fogo


de uma terra quente
do ar que traga calor
da água que se beba
chama quente outro calor

Pedro

de um lugar quente


do longe do tempo o fogo
do longe do tempo o calor
do longe do tempo perto
do perto do tempo onde
perto do que os olhos vêm
perto como vê o coração?

Pedro

2009-08-04

para


para que serve o ar
para que serve a luz
para que serve a cor
para que serve o tempo

para ser imenso
para ser imenso

Pedro

2009-08-03

momentos


há momentos de tempo que passa sem se dar por que passa
entre luz azul
tellement bleu
on dirait
le temps sans fin

Pedro

de um ver reflexo


vejo-me a escrever como nunca escrevi
a calma de dentro a ser escrita de si


Pedro

2009-08-02

e ping e ping e pong e pong


ping pong
ping ping

uma bola
ping pong

uma gota
ping ping

a bola faz
ping pong

a gota faz
ping ping

Pedro

coisas do dia-a-dia
com que se faz poesia?

por uma cama desfeita


não te levantes
deixa-me encostar-me mais um pouco
sentir-te o perfume
sentir-te o calor
sentir-te

não te levantes
deixa-te ficar mais um pouco
o sol está em corte à lua
a lua recolhe-se do sol
precisam de espaço
precisam de tempo
como nós

Pedro

2009-08-01

lentamente devagar


lentamente
como um vulcão
um dia
na noite
o dia

lentamente
como a paixão
um dia
tu amor
o dia

Pedro

2009-07-31

sunshine


o que fixei de ti
a primeira vez
no teu olhar
foi o brilho desse olhar
o brilho dos teus olhos
o teu brilho
bonito sorridente tão brilhante

se agora é noite de luar
é de luz brilhante
como reflexo de luz
na superfície do mar

mar de vida
mar instante
mar reflexo
mar amante

mar amante da lua
que partilha o reflexo, luar
mar pela vida navegante
em ondas de amor devagar

Pedro

2009-07-30

cinema de animação


o bichinho e gosto pela animação (cinema de animação) é um animal poético que nunca nos larga, dêem que voltas derem as voltas que a vida leve

Pedro

como estou eu sempre


não saber escrever é como eu estou sempre
às vezes perdido de mim
às vezes nem assim

regresso lento letra a letra a mim
quando me chega a frase a que chego
quando me chego por onde vou a mim

é estar de estado descoberta permanente
jogo sem jogo com e desregras sempre
procuras de não procuras
que não procuro e me encontram
surpresas sorrisos brilhos e suspiros
em rimas desrimas de com e sem vírgulas
entre um chá de camomila ou frutos vermelhos silvestres
como entre um brilho de sol por um luar adentro
que sei eu nada de poesia escrita concreta ou outra
vou sabendo que sei que quero saber
de um lugar esse tempo banal
caminho via estrada intemporal

Pedro

2009-07-28

num mundo( , ) que giro


um pequeno mundo
(que gira sem parar)
é um mundo
nisso mundo
de um tamanho
tamanho
o tamanho
(d)a alma (d)o mundo

e uma alma que gira
(que gira, que gira)
é do tamanho do mundo
que giro
do mundo que gira
a alma, que gira


há mundos tamanhos
em mundos que giram
em mundos giros
que giram tamanhos


Pedro

o que dizem os teus olhos o que dizem os olhos teus


um olhar
o olhar
é tanto
tanto
que um olhar
o olhar
é tudo
tudo

Pedro

calor


calor de amor
calor calor
quanto calor
amor amor

Pedro

2009-07-20

viagem


sem pressa
que o tempo lento é bom
tempo de descoberta
na estrada reflexos
no ar reflexos
no vento reflexos
e no olhar o tempo de ser
viagem dentro
o olhar no olhar
a imagem do som na palavra silêncio

Pedro

2009-07-17

20090715


começo um caminho que gosto, ir
quase vazio
a levar pouco
o menos que possa
para ter lugar no que traga
de olhares passeios brisas mares
travessias feitas navegares
passagens e margens
tempos vagares
um ir por aí
só por aí
marinheiro de si

Pedro

2009-07-14

e molhos


de molho
a salinidade
variável

Pedro

2009-07-13

que sabor


deixo que a canela se faça cheiro
no sabor do café

Pedro

2009-07-12

da memória


há corpos que não se esquecem por mais que o tempo passe, por mais que as memórias se povoem de outras memórias, por mais que ventos e ares varram pós e pensamentos, por mais que a vida tombe, por mais escadas que subam desçam trambolhem e ajudem a levantar, por mais e mais, há corpos que não se esquecem, a minha filha acabada de nascer, o meu filho acabado de nascer, a crescer o espaço que vivem

e há corpos que não se esquecem por mais que se desconheçam, como num encontro formal oficioso e oficial, da pessoa ao lado um toque inoportuno incoerente cego transitório no pegar da pequena faca para barrar um pouco de manteiga na tosta o cotovelo toca o cotovelo e um choque telúrico aos milhares de volt transita em menos de um milissegundo e parece que é um mundo uma galáxia universos paralelos magnetismo arrebatado partículas subatómicas e um cataclismo de proporções que o acelerador de partículas do CERN não reproduz

há corpos que não se esquecem no desconhecido em que se conhecem no tempo de nunca se terem visto e nunca mais se verem

Pedro

2009-07-11

por entre estar


uma conversa boa
e amizade conjugada
é como vida ser e ar
respira-se
entrega-se
vivifica

Pedro

do real


uma realidade
nua
é como a lua
nua
e a luz do sol
nua
tão intensa e
nua
como a verdade
nua
de ser a verdade
nua
tão cruamente
nua

Pedro

2009-07-10

pelo tempo


há um tempo de tudo
(onde cabe quase tudo)
um tempo presente
ao longo do tempo
que presente é passado

[ gostava de ser conhecedor do tempo
para ser sabor do tempo
para ser o tempo
pétala flor para lá da dor ]

um tempo que é inteiro
tempo sempre de agora
tempo de sentir o tempo
sereno o tempo de agora

Pedro

da tarde ida


por longes curvos direitos
a perder de vista e sem fim
tempo entre estrada e céu
noite que o dia amanheceu

Pedro

2009-07-08

à lua


fora um raio de luz à luz do luar
perguntava-te

a luz que te escorre entre os dedos
vê-te
por onde
à luz
à lua
luar

Pedro

2009-07-07

pelo caminho


por quantos caminhos de só
seguem tantos só caminhos
tempos a pares e sós
tempos de sós a par
tempos mais demais sós
sem nisso realizarem
que só é quem se não saiba só
que o só de si é acompanhado

Pedro

2009-07-06

à luz de um sol


à praia, a luz amarela o sol rasante
entre um grão e outro da areia
que asas do vento
a brisa atravessa
os interstícios
entrelaçados
do brilho
a luz
do mar

Pedro

que misturo


misturo cores
misturo silêncios
misturo sabores
às vezes pigmentos

misturo olhares
misturo vontades
misturo passos
às vezes verdades

misturo sentires
misturo saudades
misturo pensares
às vezes luz

Pedro

2009-07-05

que tempos


diabos vermelhos
cor de sangue
bocas funestas
olhos fechados
tempos abertos
espaços contados
caminhos curtos
redondos armados

Pedro

2009-07-04

existências


perto de um novo arco-íris
como não ser teimoso em existir
mesmo que pareça incompreensível
são as cores a magia disponível
da energia de seguir e provar
do sabor de cada cor e do ar

Pedro

coisas


acho que uma das coisas que pecam nas abordagens ditas "novas" (whatever that means) é a necessidade de "rotura": como se viver o momento implicasse desvalorizar o passado e o futuro, ou o desaparecimento da dor e desilusão

acho que não

acho que isso nunca acontece;
acho que ao ir por aí se criam mais problemas do que soluções;
- se estou neste presente foi que o passado aqui me trouxe, e
- neste presente faço em permanência o futuro,
- com o segundo de agora já fiz passado e é o futuro que mo faz, e
- com isso mais do que nunca a força do
- aqui e agora, o momento vivo

isto são La Palices, não estou a criar nada de novo

o preconceito existirá sempre, as decepções também, os traumas vão-se vivendo (se não forem demasiado presentes serão só traumazinhos), as expectativas são mais do que humanas (são tb sal que dão tanta energia para seguir em frente, se forem em excesso é que podem consumir energia demasiada na frustração!),
viver é a mistura de tudo, e se tiver essa componente presente de consciência do aqui e agora, será/é tão mais rica a experiência de vida

há uma componente nisto tudo que a mim me faz ticking de forma diferente e tão melhor: impro, improvisation... improviso, não o desenrasca, não é isso, é a súmula do aqui e agora

Keith Johnstone (Keith JoãoPedra :-), um ou dois livros dele, o Impro, por exemplo, que dá as pistas para esta coisa que é a consciência tão grande do aqui e agora... ajuda tanto a eliminar os preconceitos, os filtros responsáveis por nos obrigarmos a termos sempre ideias interessantes (ou seremos desconsiderados!); isto do impro ajuda a criar o bom deixar ir porque a espontaneidade é a chave da vida

o que o Impro tem é isso: a recuperação da espontaneidade que, enquanto crianças, tínhamos a rodos e que as martelagens de tudo à nossa volta nos foi fazendo perder, ou moldar, ou recalcar...

a espontaneidade é o eu

e quando o eu é martelado para se formatar ao que são as convenções ou ao que se espera de nós (os scripts impostos dos outros, sejam pais, professores, chefes, colegas, e outros), começa o infortúnio de viver o que os outros querem que vivamos em vez de vivermos o que espontaneamente procuramos

isto não é a apologia da anarquia!
em rigor a anarquia advoga que a minha liberdade termina onde começa a do outro

e do meu espaço de conforto, outra forma de dizer liberdade, e do espaço de conforto do outro, eu não abdico, porque para existir o outro, eu existo, que eu sou o outro para o outro, e nisso sou eu
:-)
e vivo :-)

Pedro

lugares


com sons
palavras
vagares
entrementes

e silêncios
espaços
palavras
sons
bons

Pedro

que sons


nascida dos sons que geras
tu palavra geratriz
que significados depois
o que forem
o que sejam
vezes quantas
des-significados aparentes
sentidos
feitos
depois

ler entender escutar ouvir
tanto mais no eu que lê
se faz reflexo o que lê

Pedro

2009-07-03

lua


numa lua antes branca
pousou o sonho risonho
era o sonho de criança
um veleiro leve ligeiro

vinha p’lo azul conhecido
a tocar todas as estrelas
com os dedos pequeninos
de quem brinca com brinquedos

entre segredos de meninos
asas abertas pensamentos
fermentos de vida e viver
sorrisos risos e crescer

em quimera a acontecer
num corcel de magia
lua e sol o que vão trazer
a luz branca o novo dia


inspiração muito directa
(quase roubo vergonhoso, ou sem vergonha?!)
do original e lindíssimo
BRANCA LUA
Letra Ana Vidal
Música Rita Vasconcellos
Voz Mafalda Sachetti

obrigado pela inspiração :-)

Pedro

das letras dos sons que tons


há letras que se sentem sons
e sons entre letras aqui
que sons por aí a espaços
outros silêncios sons também

Pedro

país


um país de tourada
um país de fingir
um país à paulada
um país de fugir

este não é o meu país
mas que país é o meu?
um país de escarcéu
o país ensandeceu?

Pedro

sonho


o sonho é vida
que comanda o sonho
que comanda a vida
a vida sonho

sonho acordado
vivo sonhado
vivo acordado
o sonhar vivo

Pedro

gosto


gosto
do que traz e leva o olhar
que o olhar é a alma
a alma a vida
a vida tudo

Pedro

abraço que te vi vi-te


num abraço de despedida onde te vi
vi-te
num abraço na margem do comboio
vi-te
num abraço na margem do avião
vi-te
num abraço na margem de Anaheim
vi-te
num abraço na margem de Lisboa
vi-te
num abraço na margem de Boston
vi-te
num abraço na margem de Montreal
vi-te
num abraço na margem de Halifax
vi-te
num abraço na margem de Paris
vi-te
num abraço na margem de Bruxelas
vi-te
num abraço na margem de Atenas
vi-te
num abraço na margem de Amsterdão
vi-te
num abraço na margem de mim
vi-te
num abraço na margem em ti
vi-te
miúda que te vi tanto por onde tanto te vi
miúda
vi-te

Pedro

2009-07-02

no ti do tu do eu o eu


acredito num em ti
que é um tu
que é um eu
que é o eu
porque sem um ti
não há há um tu
não há um eu
não há o eu

Pedro

coração


quando o coração balança
o que balança o corpo
a mente que balança
que tom balança
de que som
que ser
tem

Pedro

estar


estar
só por estar
a deixar o tempo passar
por um estar com gozo de estar
a sentir do tempo o ar
que é só estar
por estar
e ser só
isso

Pedro

da magia da mudança


a magia do olhar que muda
porque a luz muda
porque o estar muda
porque muda o sentimento
e muda não é a visão
que vai falando enquanto muda

Pedro

reflexos


perder-se no encontro
no que corpo e corpos
se encontram

que reflexos do eu
na cor do reflexo
reflexo

que raios de luz amanhã
nos raios da manhã
amanhã

Pedro

passos


não sei os passos que são os que dou
nem dos passos que não dei

não sei tanta coisa que já sei
que não sei nem saberei

mas sei
que aos passos que faço
só eu faço o que sei e o que não sei
de mim o ar que passo
de mim o ar abraço
que sei como estou e saberei
aqui presente e consciente
nos passos que dou que não sei
onde me levam e levarei

Pedro

um dia um dia um dia


porque a vida são 3 dias,
em que dia estou?
porque a vida são 3 dias,
em que dia vou
mudar de vida mudar
sempre a tempo de mudar
que não seja só falar
que a vida são só três dias
que seja mais que só falar

Pedro

2009-07-01

de escrita


quando é de dentro
não tem tempo
ou data
é sempre
presente

Pedro

de viagem e avião


uma garrafa de água e limão
vous voulez des glaçons?
non, mais j'aimerais bien le stick presseur, celui que vient avec le chocolat chaud
ça?
oui, c'est ça, comment vous appelez ça?

pelo barulho dos motores vejo-lhe os lábios a falar
não ouço e não percebo
deve ter dito qualquer coisa de inteligente
sorrio

é muito bonita
como quase todas elas
e nem todas fazem sorrisos corteses de serviço

alguns sorrisos são de dentro sentidos sentem-se
faz uma certa diferença que é toda a diferença
para a maioria de quem veja os sorrisos devem ser todos sorrisos
para mim não

basta ver como fica o rosto depois do sorriso
se à volta dos lábios restos de sorrisos convidam a voos sorridentes
ou se a rigidez se instala como cadáver que já morreu

quase todas matam os sorrisos à nascença
prematuros sorrisos moribundos
e é triste ver sorrisos nado-mortos que falam da tristeza que lhes vai dentro

não se ensinam sorrisos verdadeiros
aprende-se da vida quando se é feliz ou se faz por ser feliz

a alma humana está por todo o lado e nenhuma situação é enfadonha
se existe alguém por perto

observo quem passa ou esteja
e todo o traço é um filme inteiro
que não descodifico completamente
nem pretendo não sou deus
mas encontro fontes inícios trânsitos estados
a maioria em preocupação aflitos
quase sempre apressados
e alguns em estar calmo porque sim

vejo poses olhares fugazes penteados cachecóis
e testas
as testas dizem muito tanto
quando carregadas que têm muitas pistas de autoestradas
variadamente completadas com olhos raiados a fazer de ferozes
mais algozes deles mesmos

nos sorrisos das hospedeiras
sinceros
nunca se tem a certeza que haja convites
e lembro-me do Truffaut no filme em que vem a Lisboa
e há um número de telefone numa carteira de fósforos
e já não me lembro do resto
mas lembro-me dele na Gulbenkian e duma pergunta da assistência
que lhe falava disso porque o filme tinha uma conferência em Lisboa
e ele estava ali connosco numa conferência em Lisboa
e chegou ao palco tal como no filme
através da cortina
e foi impossível não reparar no dejá-vu
e alguém lhe perguntou se tinha uma carteira de fósforos nos bolsos
e qual o número de telefone
e todos rimos gargalhadas alegres como se amanhã todos continuássemos vivos
e ele já tinha cancro e a morte adiada
e ninguém sabia
e eu era um puto deslumbrado com a vida do cinema
que já sabia que o cinema está em todo o lado
que ainda não sabia que a ficção é pálida
amostra
de toda a vida real

no voo de ida reparei numa hospedeira que me olhou
sem necessidade profissional
reparei é força de expressão
foi pela visão periférica
percebi um olhar intenso
e fui ver o que era
e ela olhava-me fixamente
e não desviou o olhar nem se embaraçou
simplesmente entregou-me um sorriso bonito
e sorri-lhe
enquanto duraram os olhares a ver-se e ela a passar

ela passou e eu guardei-lhe o sorriso
não sei o que fez ela do meu sorriso que lhe dei

já não se fuma a bordo
e ninguém anda com carteiras de fósforos
nem eu ia para Lisboa
nem dar uma conferência
mas não me impedi de pensar como é um namoro assim
como o da Filomena e o comandante alemão
ele no ar ela em terra
vêm-se quanto nas escalas extemporâneas

nestas viagens faço muitas coisas
durmo
durmo muito quando consigo que não me acordem

ao comandante havia de lhe encher a boca de trapos
quando se lembra de avisar a altitude, sempre a mesma
a temperatura lá fora, sempre a mesma
a velocidade, sempre a mesma
o trajecto, sempre o mesmo
a hora de chegada, sempre a mesma
a velocidade do vento, variável

podiam estar calados e calarem-se
e deixarem-me a alma chegar-se aos anjos

acredito em anjos
como não acreditar se sobrevivi
para contar

como foi que não tenha sido um anjo
que me guiou
que guinou
que fez
agora

só pode ter sido porque não tenho mais explicação

no todo racional e engenheiro e de inteligência que tenha
a poesia devo-a à vida
e a vida ao anjo
que tenha tido o desleixo de fugir das suas tarefas celestiais
que hão-de estar tão sobrecarregados que sejam infelizes como todos
e nessa fuga para descansar da enfadonhisse eterna
deve ter achado graça intervir
e nessa graça foi coreógrafo do meu ballet estranho

há lá coisa mais engraçada que piruetar de carro despistado às 6:45 da manhã
entre sons de tears in heaven a plenos pulmões?
o anjo deve-lhe ter achado graça brincar a deus por uns segundos
de eternidade adiada
os segundos em que renasço de todas as cinzas e do cheiro intenso
da borracha queimada ao som da luz da madrugada

acredito em anjos
não
acredito num anjo que me tenha feito dançar no palco da estrada para estar aqui
e se há um
talvez haja mais

abro a garrafa de água
que coloco um pouco no copo de água
e à meia rodela de limão
pressiono-a
para lhe dar a liberdade
de me gostar

repito o processo a espaços
enquanto
escrevo o que me apetece e inspira

como as nuvens que são água
os passageiros cabeças de fósforos
e tudo o que pelo ar me deixe ir sem pressa
sorrisos abraços ternuras carinhos
bolos pastéis natas travesseiros
escrevo entre sonos
espreguiço-me quando me levanto
a deixar passar a 5A
escrevo na memória de adormecer
devia anotar não anoto
ou me lembro depois ou que se lixe
agora durmo o descanso
não tenho pressa

aterramos
tento ver se temos manga ou autocarro
as da 14 em diante estão ocupadas
falta a 7 que não vejo
paramos ao lado da 7 preenchida
temos autocarro

sou o terceiro a sair
já no autocarro
vejo todos a descerem
telemóveis ligados
as conversas sempre as mesmas
chegámos


Pedro

tempo


entre uma vaga e um vagar
quanto tempo tem o mar
quanto tempo do fogo
quanto tempo o ar
vida e fome
de amar

Pedro

por uma espera de telefone


que espera é essa
tocante
que espera
audiante
que não se faça
requente
odiente


uma espera é um estado suspenso
quantas vezes a espera mais
a espera do eu suspenso


Pedro

pele


pelas mãos
pelos olhos
a pele à flor da pele
que mãos
que olhos
de quem

Pedro

2009-06-30

as letras das palavras


entre as letras das palavras
que brincadeiras de letras
fazem letras nas palavras

Pedro

tempos


tempos e tempos e tempos
que tempos tantos tempos
o estar de olhar-te silêncio
de um tempo parado só
tempo com tempo inspirado
num tempo tão breve só

Pedro

da forma


uma forma diferente
é como a própria sonoridade da palavra e da letra
e do silêncio
que uma linha esteja a pedir

às vezes nem se sabe que acontece

e quando acontece
que se perceba depois
é uma forma de alegria infantil
como o que infantil tem de puro,
é puro nascimento

Pedro

chegar


chegado aqui, que silêncio
o silêncio de ser um espaço
às vezes por preencher

Pedro

2009-06-28

espaço


mesmo no espaço vazio
há uma partícula só

Pedro

2009-06-27

entre isso e aqui


ser
existir
pensar
viver

livre
entregue
o eu
em si

quanto
do eu
é o tu
em nós

quanto
de nós
em nós
amor

Pedro

tudo tem um tempo


tudo tem um tempo
que não sei que tempo é
quanto ou onde

um tempo de pensamento
concreto
ou disperso
longo

um tempo imenso
redondo
um risco circular

e se o tempo for demais
o tempo será só mais
outra forma de prisão

Pedro

ao silêncio de que som


no ruído do meu silêncio não me perco, traço pontos entre linhas imaginárias, os pontos reais, os pensamentos incorpóreos, e entre um ponto e outro anoto as variantes de silêncio que percebo: o silêncio do vento parado, o silêncio do ar respirado, o silêncio do meu coração, o silêncio da minha alma; custa-me mais ouvir a alma, esse silêncio que toco de uma a outra letra à música que faço no silêncio que afogo o estar de solidão

há silêncios tão longos como uma noite longe

Pedro

auto-estima


para amar
te amo
a ti
eu

Pedro
auto-estima é aquela garagem onde estimam muito o carro de cada um; já a Auto Prazeres é mais reparações e tunning, na Terrugem

entre mãos


entre uma mão e outra mão
que mão te dá a mão
que mão na mão
o ar entre
ti e
não

Pedro

2009-06-26

where


what is the color of your reflection
where is the image of your soul
where the scent of your lips
where the eyes of your smile

Pedro

2009-06-25

the boy in the striped pyjamas



não me interessa se o filme está bem feito, se está na moda, se a realização é aprimorada, a adaptação irrepreensível, os actores brilhantes, ou o mais (ou menos) que for; não vi

li o livro e no texto me deixo, fico;
fascínio; brilho;
tocante; envolvente;
bem escrito;
tão bem escrito;
emocionante;
lê-se e vai-se
recomenda-se

a infância é um lugar

Pedro

quem diria


e em pequenas mudanças
de um trincar a outro
seis meses passados
o colesterol baixado
qu'isto é quem diria
também outra poesia

Pedro

2009-06-24

porque


porque criar é amar
porque amar é criar
porque arte é amor

Pedro

vida


arte que és fresta
vislumbre
relance
olhar de alma

Pedro

do saber de um estado


quem saberá do estado
que o olhar provoca
a que sabe o estar
de ver esse olhar
tão presente
instante
tão intenso
que o olhar de ver
a estar no que sabe
provoca quanto olhar
estado de quem não sabe

Pedro

em Genebra Atenas


em Genebra, Plainpalais, lembras-te, à minha frente, estavas sentada, e começámos a conversar, não sabíamos porquê

a solidão entre gentes desconhecidas é ponte de travessia fácil, começa-se a conversa porque afogar em silêncio não é opção, é a sobrevivência que leva aos sons da voz como jangada, e eu falei-te com o meu silêncio que escutaste pelos meus olhos a ouvir os teus sons na tua boca nos teus lábios que disseram do teu irmão em Atenas hoje é o aniversário dele e na semana antes zangaste-te zanguei-me com o meu irmão ficámos sem nos falar morreu de acidente de mota no dia antes do aniversário hoje era o aniversário morreu há seis anos estávamos zangados não nos falávamos morreu sem eu voltar a falar com ele

o meu silêncio ouviu-te lágrimas de silêncio em Plainpalais a dor de Atenas

Pedro

2009-06-22

inferno inverno


o que melhor fazemos é enganar o eu
tão melhor o fazemos
que é um espanto como o fazemos

o inferno não são os outros
o inferno somos nós

o meu inferno sou eu
e tanto que é meu
que é só meu
e que o será se o fizer

o meu inferno não depende de ninguém
só de mim
que mais vale que lhe faça inverno

inferno
digo-te inferno
faço-te inverno
tão congelado
que num toque
faço que desfaço

Pedro

2009-06-20

onde


onde te perdes
quando te perdes
em ti
que por ti te perdes
de ti em ti
por ti
que te perdes
onde

Pedro

no calor


do calor que seja cor
de amor
do quente que seja ser
de ter
do estar que seja ler
de olhar
o calor é olhar
o quente amor
o olhar ter
o amor ser

Pedro

tempo de um dia


há dias
como um dia
de dias e dias
tão feitos de dias e dias
de um tempo sem fim sem fim
e um dia
um dia
seguia por mim
sem percalço sem intenção
e o dia fez-se luz e tempo e espaço e quente
e sol e lua e tempo e tempo
como um dia sem fim
de um universo sem fim
porque o tempo era enfim
tempo querente tempo
tempo dolente tempo
tempo de ser tempo sem fim

há um tempo que fica suspenso
um tempo de um olhar assim

Pedro

nos olhos


que olhos abres
aos olhos
que te vêm
que olhos
olhares
para lá de olhares
que olhos vêm
que vêm os olhos
o teu olhar

Pedro

2009-06-16

coisas


das coisas sem importância
nascem tantas várias coisas

Pedro

cor de um eu


de que cor é o meu reflexo
quando me olho a mim reflexo
esse eu no modo de ser
o ser eu reflexo de mim

de que cor o meu reflexo
me reflecte e faz a mim
um eu aqui e um lá reflexo
de mim o eu fruto e nexo

Pedro

para Helena


de letras
de sons
entendimentos
tons
.
cantos
reflexos
refractos
perplexos
.
sentidos
caminhos
vivos
vistos
.
tempos
idos
tempos
vindos
.
de sons
as letras
os cantos
os tons
.
quantos
enquantos
dos cantos
os tons

Pedro

2009-06-15

reflexo


reflexo cintilado
faceta diamante
eterno brilho dentro
esse amor amante
criança diamante

Pedro

para lá do ver


para lá do ver o que vê
o que se vê

quanto o ensejo do ser
nesse ter
de ver para lá do ver
o que seja ver do ser

Pedro

a seguir e ler, Felix Dennis



Felix Dennis' odes to vice and consequences
Media big shot Felix Dennis roars his fiery, funny, sometimes racy original poetry, revisiting haunting memories and hard-won battle scars from a madcap -- yet not too repentant -- life. Best enjoyed with a glass of wine.