2009-08-30

de estar e ser bom


é bom estar
é bom ser
é bom viver

Pedro

2009-08-29

carta


uma carta de amor
é um poema
com todo o amor
que nele contenha

Pedro

como não escrever em ti palavras de amor se te amo tanto que não sei como amo


escrevo-te o corpo que sinto
o sentimento que sinto
o sentir que sinto
escrevo

Pedro

uma carta de amor de um tamanho único (que é um tamanho imenso) como único o amor do amor que escrevo


escrevo com amor
uma carta de amor
ao meu amor
que escrevo, amor
com muito amor
estas linhas
palavras
estas palavras
uma carta?
esta coisa dita
como as palavras
ditas
com mais do que sentimento
com sentimento
amor
de quem sente
amor
nas palavras sentidas
palavras
consentidas
nos actos
nos olhares
ditongos
vagares
no despir
da palavra
cada sonolência
do corpo
entregue e ais
gemidos e ais
e huns e huns
no teu corpo
mais
no meu corpo
mais
palavras palavras
todas as palavras
que não ouço que gemo
entre palavras
que entrego
o tempo de todas
e todas as palavras
por entre palavras
o tempo que quero

Pedro

amor


amor carne
amor mente
amor louco
amor demente

Pedro

2009-08-28

quando a espera é espera que foi


quando menos esperas
alcanças

Pedro

carta ao meu amor


o que mais fixo em ti?

o que mais fixo em ti é o espírito, a graça, o sorriso, o riso,
e que a isso juntes um físico de espanto
ah sorte de espanto
que me espanto no espanto da sorte de tanto

o que mais fixo em ti é o amor, amor,
o amor de amar, de amar desse modo, a entrega amor,
o amar inteira o amor de entrega, o amor devagar, amar depressa

o que mais fixo em ti é o olhar, que diz sem perguntas,
que olha fixa e vê, o olhar de amor no olhar de amor

o que mais fixo em ti é o reflexo de mim,
a cor que sou no reflexo de mim,
na cor dos teus olhos a cor do teu olhar

que mais te amo? o que mais fixo em ti
que te amo mais

Pedro

o meu vizinho


a sua grande infelicidade
no seu pequeno carro
o meu vizinho arrasta sombras
num saco cheio e pesado
tão grande no cenho carregado
segue cedo para o trabalho
dia longo inteiro ensombrado

Pedro

sinais



no fim o verão
início o outono
que outonos virão
que inícios verão

Pedro

quando o tempo passa e finalmente


ontem queria o mundo

hoje quero-me a mim

hoje quero-te a ti

com 5 queria o mundo
no décuplo querermo-nos

Pedro

de um sincero aniversário


Não faço anos hoje, já fiz, é passado, estão feitos, para o ano há mais; e mais anos para o ano também, espera-se.

Este ano, inesperado, dos costumeiros sem falhas, silêncios;
este ano, inesperado, variados e vários mensageiros inesperados.

Não resisto a esta... É-me deliciosa. Não sei se o Luís anda por aqui. Sei que gostei da mensagem. Sei que gostei do que me meti na resposta. Que há respostas automáticas, respostas pessoais, respostas entregues, respostas intestinais.

Ah carago que gosto deste gosto de estar, ah carago que gosto de me estar, ah carago que gosto de gostar

Costumo dizer que não sou Português, há muita coisa que não entendo, e vernáculos que não domino; não é mania nem peneira, é facto; e de facto nem sei se carago é vernáculo, mas ah carago como o ser vivo é bom de facto!

Aqui vai o texto, resposta ao Luís:

> Olá Pedro
>
> Tanto quanto sei, fazes anos hoje. Infelizmente, com o excesso de
> informação indiscriminadamente de boa e de má qualidade, nunca
> se sabe.
>
> Se fazes anos, desejo-te felicidades
>
> Parabéns
>
> -- Luis

Tanto quanto sei estás correcto :-)
foram 50 que já cá cantam, não escapam nem fogem
nem os quero em sumiço que me souberam bem
para me fazer rijo (isso) prós mais 50 que lá vêm

:-)

Pedro

numa margem sentado à beira do rio que não chorei



guardador de margens
caminhos
vagos
vamos

guardador de viagens
trânsitos
estados
gritamos

guardador de dentros
pensamentos
idos
antanhos

guardador de um eu
de um espaço
um dentro
um tu

guardador do rio
que passa
que faço
que vive

rio que guardas
memórias
rebanhos
estranhos

rio que passas
que lavas
que lavas
que rio

rio que passas
que lavas
que rio
que rio

Pedro

2009-08-27

tempo


o tempo distante a cada instante
o tempo
tempo constante
o tempo
curto o segundo
longo o segundo
do tempo instante do tempo constante
o tempo que passa
o tempo que pára
a ver passar o tempo que passa

voa tempo regresso
voa tempo de inferno
voa tempo tempo voa
foge tempo
faz-te à vida faz-te à estrada
tempo foge
desfaz-te contra o mar
desfaz-te contra o ar
faz-te tempo tempo presente
tempo!
vê se aprendes a passar

Pedro

2009-08-26

luar


de mãos dadas
o luar a espreitar-nos os beijos
ah como quero esse tempo
de estar e a lua a espreitar

Pedro

little window



por uma janela pequena
vi-te, pequena
ah vi-te
e nisso a janela
e tu, pequena
pela janela pequena
ah pequena
vivo-te mundo grande

Pedro

nuvem passageira



– Deixa-me colocar um pedacinho de nuvem minha no teu céu

E a fertilidade aconteceu

Pedro

oh this simple thing


there's a quest
so simple
how to simply say
to say it simple
in the simplest way?

ah the simple quest so difficult
as all simple things
are not so simple at all
they are the hardest things
the hardest things of all

how to
say it
in the simplest way
the way you feel this way?

one way, is this the way
may be just to say
saying it in this way
this simple way to say:

my love I love
I love my love

Pedro

tempo


anda a caminhada
o eu regresso
retomo o tempo
o tempo agora

ah o tempo

o tempo nosso
o tempo novo
o tempo nosso
que te peço

Pedro

à memória do futuro memória no tempo futuro


a vida retoma-se
vestalmente
sal da vida
temporal

de feição à feição
do furacão acalmado
a vida retoma-se
finalmente
virgem do tempo
carnal

Pedro

vida e amo


amo a vida que me trouxe aqui
amo a vida que me trouxe
amo a vida
amo

Pedro

gero a geratriz que giro e gero que gero que giro que giro que gero


o fruto gera a flor?
a flor gera o fruto?
no ventre o fruto dessa flor
no verso a flor do fruto em flor

Pedro

de um fruto flor de um fruto em flor


como no doce de frutos vermelhos
tão vermelhos
quanto doce o doce é
que me és tão doce
que me és
tão
doce
que me és tão doce

saboreio
sinto
volto
sinto

saudades
que sinto
que sinto mais
tanto mais saudades que sinto

Pedro

olhar



que olhar que olhar
que olhar é o meu
de entre a sombra
de entre o olhar
de entre a sombra do olhar

Pedro

2009-08-25

marinheiro marinheiro onde anda o teu mar


onde anda a bússola
que perdi-te norte
não te perdi norte
tenho-te dentro norte
que não há perdição
norte maior
não há
que este marinheiro de ti
este marinheiro de si

Pedro

sim


sim
é uma cascata
íngreme
vê
o que me fazes

continua
e lê
vê
a cascata
que fazes
me fazes
ai!

que gosto
de cair
assim
das alturas
por entre
entre
letras
loucas
todas
por ti
por mim
nós
enroladas
as letras
nós

Pedro

ergo-te champagne vida vermelho cor de morango


no sopé do meu pé
eu montanha de mim
ego para lá do ego
a água fria toca-me
e desço devagar lentamente
à areia a minha praia
para um sol luminoso
um dia começado
para luares e nascimentos
de um dia depois do outro

este já é mais do que o primeiro
dos dias das nossas vidas
pela vida e à vida
morangos e champagne

Pedro

de louco de vivo de morto e renascido todos temos um pouco e uns bem mais que esse pouco


he pá
hás-de reparar que enlouqueço
muito rapidamente
tão rapidamente
que enlouqueço
que não me revejo
a cada reflexo fugidio
da cor do meu reflexo
de que cor é o meu
reflexo
ah como reflexo o reflexo este
reflexo amor
como o amor mata e consente
que se mate lentamente
de amor o amor ausente
o amor que cresce e se abandona
e consente
e vive
e revive
que a vida seja enormememte
tão enormemente como vive
amor verve amor verve
amor vero verve amor

ah caraças de coisa esta que me matas amor
vês que me matas?
revive-me
renasce-me
que te vivo
inteiro
que te renasço
te alcanço
entre aqui
e um instante

ah amor
como vivo como vivo

Pedro

fui ao doutor das doenças e ele disse-me desembrulhe-se desenmerde-se que isso é - não vou dizer o que é aqui no título, pois não?! ora


tem que ser doença neuronal
tem que ser
doutor
veja faça
analise
teste afinal
é doença, doutor?
de que padeço que tal?
não
como não
se é
só pode
só pode
doutor
veja lá
como se pode escrever tal
assim
oiça
já os títulos se me escapam
até os títulos se me fogem
não faço nada das letras
fico c'os olhos aos molhos
veja lá doutor
veja
que não controlo
que doença doutor
doença
paz?!
de amor?!!
mas oh doutor ...
diagnóstico? ...
por favor ...
p'ra entender ...
doutor!

Pedro

ah que fogo me fogo há no fogo que fogo fogo há


um fogo
que é este
é um fogo
que fogo
entre lava
furacão
entre alva
dimensão
o fogo ilusão
concreto coração

Pedro

saudades de ti


saudades de Paris
saudades de Veneza
saudades da Escócia
saudades de ti
o espaço de todos os lugares
espaço infinito
espaço de vida
infinito o lugar da vida amor

Pedro

caminhada caminhada caminho acompanhada


um passo um passo
só mais um passo
só mais um esse passo
mais um passo mais um passo
que sobe o caminho
_ o pó sem calçada
sobe que sobe
_ íngreme caminhada
sobe tanto tanto longe
sobe a pique sobe só
sobe não só a caminhada
sobe as penas largas pó
do pó que largas das sandálias
sabe o pó que desmemória
por entre o pó que te vejo
só vejo passos de acompanhada

Pedro

de um pó que se alevanta caminhada infinita


da poeira a que regresso
entre poeira que caminho
da poeira do regresso
do pó feita poeira inteira

Pedro

de lá de longe de tão longe


no seco poisio que me encontro
entre trânsitos penosos
do sol que nasce no deserto
no horizonte a humidade cresce

Pedro

chuva


deve ser isto chuva
gota a gota palavras
linhas entrelaçadas
água letras enxurradas

Pedro

vida


quero consumar
como me consumo
para lá de concreto desejo
viva vida isto inteira

Pedro

ar terra água fogo


olha o ar que toca o céu
olha a terra que te caminha
a água que te inunda
do fogo que te consuma

Pedro

água


que água
me mata
mais a sede
que mata

Pedro

ar


que ar
o ar
de ser
respirar

Pedro

terra


que terra
é terra
de caminhar
e viver

Pedro

fogo


que fogo
é o fogo
que arde
e se vê

Pedro

2009-08-24

tempestade no canal


dessa tempestade no canal
amor
quero as tuas vagas
amor
ah quero o teu canal

Pedro

e eu


ai caraças
que a cada vez
gosto mais de ser quem sou

Pedro

pai e filho


Ontem chegámos tarde do cinema, e jantados, ele diz:

– Estou contente. Gosto de ser quem sou...

– O que disseste?!

– Gosto de ser o Eduardo. And if you don't like it you can go to hell...

Fiz-lhe um silêncio breve num breve sorriso, para a seguir dizer o que ele e a irmã já me gozam:

– Tens doze anos e já sabes mais que muitos adultos...

E sorrisos risos.

Pedro

pai e filha


Depois de uma conversa boa, em fim de tarde, na esplanada do Saisa em decrepitude, Santo Amaro de Oeiras, sobre a areia da praia:

– Cada vez gosto mais de ser teu pai... – disse eu

– Vou dizer uma coisa engraçada... – disse ela. – Eu cada vez gosto mais de ser eu...

E sorrisos risos.

Leonor



ah como vai cândida e formosa
pelo branco da avenida
Leonor tão bonita
rosa pétalas bela a flor florida

Pedro

de uma estátua em transe


sou o teu mármore
que o teu limão derrete

Pedro

desejos


um bom duche
que eu duche bom

Pedro

cozinhados


ai que desforra de mimo
e caldo associado

Pedro

amor


se possível
perguntava-me
como seria

agora sei
que vou sabendo
e sabe bem

Pedro

um relance de ler ler-te ter-te ser-te te ser


leio-te em mim, amor, leio-te
ah como te leio que quero ler tanto

Pedro

beijo


um beijo meu
que te dou
um beijo meu amor
ai dou-to

Pedro

2009-08-23

o teu brilho meu amor cega-me completamente


reparaste
certamente
como me cegas
docemente
tão definitivamente
intensamente
como reparaste
certamente
que me cegas
meu amor
devagar
lentamente

Pedro

das crianças em nós


ser pequeno em grande
é ser tão grande
é ser maior
é ser
é-se

Pedro

2009-08-22

pi


quando o valor de PI é 3
ele é tão mais que 3
como é o valor de PI
3.141592653589
e muito mais muito mais
na dízima infinita não periódica
um valor a números sem fim

Pedro

2009-08-21

declaração


não gosto de pontuação
não
não gosto de pontuação
pois não não gosto
não
gosto de pontuação
gosto
que gosto mesmo
a gosto
de pontuação
pois gosto
gosto
de pontuação
a gosto
a gosto
de pontuação com efeito

Pedro

no relance de um beijo


o teu amor eu
meu amor
ama-te inteiro
e dá-se-te todo
amor, todo!
como no primeiro beijo

Pedro

amor


às mulheres que me amam
eu digo obrigado
à mulher que eu amo
eu digo
tanto
obrigado

meu amor
amo-te
tanto
obrigado

Pedro

2009-08-20

anos


estes anos que vão passando
não pesam
vão pesando
não lhes sinto o peso
vou sentindo

deve ser disso
este cansaço
que não sinto

Pedro

2009-08-19

And where is the wine??



Olá Flavio e Gina

o vinho está no comemorar o encontro de amigos e amizades
vinho espesso líquido tinto encorpado
como as amizades boas dos corações
fortes envolvidas entregues vividas
entre vinhos bons
entre vidas boas

um obrigado tão grande meu
deste lado do lago
para esse lado do lago
numa ponte boa
um forte abraço
copo cheio de bom vinho
selo e bebo, alegria, à amizade

longo e forte abraço do
Pedro

como te vou


vou pela poesia
como vou pelo teu corpo
vou
vou
poesia o teu corpo
poeta amor
amor em ti
tu
meu amor

Pedro

sabores 2 sabores que 2 sabores a 2



café preto amargo
com canela

compota firme
de frutos vermelhos

combinação sublime
estado perfeito

deve saber assim
o sabor do amor


Pedro

2009-08-18

foi a festa pá


gostei da festa pá
estou contente
do sabor novo nos olhos
como sabor de Abril

Pedro

sabores



Pedro

diamantes


amantes de dia
amantes à noite
os dias dos amantes
são dias diamantes

Pedro

diamantes


um diamante diamante
brilha diamante
que brilho diamante
diamante diamante

Pedro

2009-08-17

answer


que não seja a resposta verbalizada
por demais adivinhada
que uma alma que se dê
deixa de ser alma que se dá
é para lá da alma que lê
ser uno na alma alcançada

Pedro

alma


de uma alma que se dê
quanto tempo
quanto se dá
a alma no tempo
alma o eterno tempo

Pedro

2009-08-16

circo círculo


a vida não é um circo
a vida é um círculo
cada um adaptado
ao comprimento do seu raio

ao dia que assumes
o que venha de encontro
desforça em descoberta
nesse dia descírculo
o fio do raio parte
desfilada trajectória
perímetro abandonada

bom dia vida minha
que sei que dormiste bem
bem vinda minha vida
tempo nosso descobertas

Pedro

2009-08-15

procuro procura procuro


- Viu por aqui, o que procuro eu?, viu por aqui, ai ui, que procuro?, viu, viu por aqui?
- Não sei o que vi, o que procura, não sei, que procura?
- Viu, não sei, não sei, que procura, que procura, não sei... Viu?
- Vi, vi a luz do sol, tão banal, como dizer que não é banal, vi, vi a luz, viu?
- Vi, vi a luz, natural, vi a luz, vi o sol, vi o brilho, vi luz, vi, que procuro, viu?

Pedro

tempo


não sei do tempo
não sei
perco-me
sem tempo
no tempo
não sei
que tempo
que tempo
onde
que tempo
que me perco
onde

Pedro

sending


I'm sending a kiss
a very gentle one
so gentle the kiss
you know
this is the one

Pedro

luz



não sei quando escrevi isto
mas ontem foi o caso em que se aplicou inteiramente

Pedro

2009-08-14

de luz de sombra de penumbra da fotografia


há um espanto que se constrói no dia a dia de descobertas

luz
sombra
penumbra
da fotografia
ângulo a ângulo
vista a vista nova
da vista nova o espanto
olhar entre espaços
na fotografia
penumbra
sombra
luz

olhe-se pela ocular
o que a lente enquadra

faça-se o click exacto
do que o olhar faça

tenha-se o cuidado extremo
da delicadeza no olhar

entre-se pela luz no espaço
devagar o olhar devagar


há paisagens que de tão bonitas
são início de viagens
há passagens que em imagens
fazem o tempo parar


Pedro

2009-08-13

mundo



mal se tocam
a caixa da madeira com cheiro
a pedra com terra
o fruto de mil frutos

mal se tocam
de tão perto

sabem da separação que os une

mal se tocam
e o nada que se tocam
são as pontes de futuro

Pedro

tempo


o tempo que parte
o tempo que chega
não sei se são
o mesmo tempo

sei
que o tempo que parte
que o tempo que chega
são um tempo
o tempo que vivo

Pedro

2009-08-12

reciprocidade


ninguém faz pelo outro
o que o outro não faz por si

a questão não é
se te faço feliz
se me fazes feliz

se sou feliz
comigo
em mim
sou feliz
contigo
em ti

se és feliz
contigo
em ti
és feliz
comigo
em mim

felicidade é o estado feliz
do (estar) ser feliz em reciprocidade

ser é mais longo
que estar
ser é a eternidade


quando encontrar o ser
desta reciprocidade
nesse por com esse ser
a certeza de ser feliz


Pedro

de um espaço de tempo entre o tempo



acordada a construção
espaço intemporal
tempo fenomenal
tempo inteiro
universal

há universos no mais pequeno
infinitesimal
espaço
que se revelam
à análise poética essencial

Pedro

2009-08-11

o melhor beijo


tantos beijos num beijo só longamente só acompanhado

Pedro

2009-08-09

estado


felicidade é o estado feliz
do ser feliz em reciprocidade

Pedro

2009-08-08

momentos


há momentos em que um raio de sol não é só um raio de sol
há momentos em que um luar não é só um luar
há momentos em que a luz é o universo
e de dois se fazer uni o verso

Pedro

2009-08-07

Le petit prince


estou a reler o "Le petit prince", em Francês
o livro por onde comecei a aprender Francês

é tão extraordinariamente bonito
infantil no que tem de mais profundo
porque no fundo no fundo
somos poesia pura
no coração de criança
enquanto a criança não sufoca
do adulto que sufoca

ser criança
é como o adulto sobrevive
quando aprende a viver
a criança dentro livre

Pedro

2009-08-05

terra ar água fogo


de uma terra quente
do ar que traga calor
da água que se beba
chama quente outro calor

Pedro

de um lugar quente


do longe do tempo o fogo
do longe do tempo o calor
do longe do tempo perto
do perto do tempo onde
perto do que os olhos vêm
perto como vê o coração?

Pedro

2009-08-04

para


para que serve o ar
para que serve a luz
para que serve a cor
para que serve o tempo

para ser imenso
para ser imenso

Pedro

2009-08-03

momentos


há momentos de tempo que passa sem se dar por que passa
entre luz azul
tellement bleu
on dirait
le temps sans fin

Pedro

de um ver reflexo


vejo-me a escrever como nunca escrevi
a calma de dentro a ser escrita de si


Pedro

2009-08-02

e ping e ping e pong e pong


ping pong
ping ping

uma bola
ping pong

uma gota
ping ping

a bola faz
ping pong

a gota faz
ping ping

Pedro

coisas do dia-a-dia
com que se faz poesia?

por uma cama desfeita


não te levantes
deixa-me encostar-me mais um pouco
sentir-te o perfume
sentir-te o calor
sentir-te

não te levantes
deixa-te ficar mais um pouco
o sol está em corte à lua
a lua recolhe-se do sol
precisam de espaço
precisam de tempo
como nós

Pedro

2009-08-01

lentamente devagar


lentamente
como um vulcão
um dia
na noite
o dia

lentamente
como a paixão
um dia
tu amor
o dia

Pedro

2009-07-31

sunshine


o que fixei de ti
a primeira vez
no teu olhar
foi o brilho desse olhar
o brilho dos teus olhos
o teu brilho
bonito sorridente tão brilhante

se agora é noite de luar
é de luz brilhante
como reflexo de luz
na superfície do mar

mar de vida
mar instante
mar reflexo
mar amante

mar amante da lua
que partilha o reflexo, luar
mar pela vida navegante
em ondas de amor devagar

Pedro

2009-07-30

cinema de animação


o bichinho e gosto pela animação (cinema de animação) é um animal poético que nunca nos larga, dêem que voltas derem as voltas que a vida leve

Pedro

como estou eu sempre


não saber escrever é como eu estou sempre
às vezes perdido de mim
às vezes nem assim

regresso lento letra a letra a mim
quando me chega a frase a que chego
quando me chego por onde vou a mim

é estar de estado descoberta permanente
jogo sem jogo com e desregras sempre
procuras de não procuras
que não procuro e me encontram
surpresas sorrisos brilhos e suspiros
em rimas desrimas de com e sem vírgulas
entre um chá de camomila ou frutos vermelhos silvestres
como entre um brilho de sol por um luar adentro
que sei eu nada de poesia escrita concreta ou outra
vou sabendo que sei que quero saber
de um lugar esse tempo banal
caminho via estrada intemporal

Pedro

2009-07-28

num mundo( , ) que giro


um pequeno mundo
(que gira sem parar)
é um mundo
nisso mundo
de um tamanho
tamanho
o tamanho
(d)a alma (d)o mundo

e uma alma que gira
(que gira, que gira)
é do tamanho do mundo
que giro
do mundo que gira
a alma, que gira


há mundos tamanhos
em mundos que giram
em mundos giros
que giram tamanhos


Pedro

o que dizem os teus olhos o que dizem os olhos teus


um olhar
o olhar
é tanto
tanto
que um olhar
o olhar
é tudo
tudo

Pedro

calor


calor de amor
calor calor
quanto calor
amor amor

Pedro

2009-07-20

viagem


sem pressa
que o tempo lento é bom
tempo de descoberta
na estrada reflexos
no ar reflexos
no vento reflexos
e no olhar o tempo de ser
viagem dentro
o olhar no olhar
a imagem do som na palavra silêncio

Pedro

2009-07-17

20090715


começo um caminho que gosto, ir
quase vazio
a levar pouco
o menos que possa
para ter lugar no que traga
de olhares passeios brisas mares
travessias feitas navegares
passagens e margens
tempos vagares
um ir por aí
só por aí
marinheiro de si

Pedro

2009-07-14

e molhos


de molho
a salinidade
variável

Pedro

2009-07-13

que sabor


deixo que a canela se faça cheiro
no sabor do café

Pedro

2009-07-12

da memória


há corpos que não se esquecem por mais que o tempo passe, por mais que as memórias se povoem de outras memórias, por mais que ventos e ares varram pós e pensamentos, por mais que a vida tombe, por mais escadas que subam desçam trambolhem e ajudem a levantar, por mais e mais, há corpos que não se esquecem, a minha filha acabada de nascer, o meu filho acabado de nascer, a crescer o espaço que vivem

e há corpos que não se esquecem por mais que se desconheçam, como num encontro formal oficioso e oficial, da pessoa ao lado um toque inoportuno incoerente cego transitório no pegar da pequena faca para barrar um pouco de manteiga na tosta o cotovelo toca o cotovelo e um choque telúrico aos milhares de volt transita em menos de um milissegundo e parece que é um mundo uma galáxia universos paralelos magnetismo arrebatado partículas subatómicas e um cataclismo de proporções que o acelerador de partículas do CERN não reproduz

há corpos que não se esquecem no desconhecido em que se conhecem no tempo de nunca se terem visto e nunca mais se verem

Pedro

2009-07-11

por entre estar


uma conversa boa
e amizade conjugada
é como vida ser e ar
respira-se
entrega-se
vivifica

Pedro

do real


uma realidade
nua
é como a lua
nua
e a luz do sol
nua
tão intensa e
nua
como a verdade
nua
de ser a verdade
nua
tão cruamente
nua

Pedro

2009-07-10

pelo tempo


há um tempo de tudo
(onde cabe quase tudo)
um tempo presente
ao longo do tempo
que presente é passado

[ gostava de ser conhecedor do tempo
para ser sabor do tempo
para ser o tempo
pétala flor para lá da dor ]

um tempo que é inteiro
tempo sempre de agora
tempo de sentir o tempo
sereno o tempo de agora

Pedro

da tarde ida


por longes curvos direitos
a perder de vista e sem fim
tempo entre estrada e céu
noite que o dia amanheceu

Pedro

2009-07-08

à lua


fora um raio de luz à luz do luar
perguntava-te

a luz que te escorre entre os dedos
vê-te
por onde
à luz
à lua
luar

Pedro

2009-07-07

pelo caminho


por quantos caminhos de só
seguem tantos só caminhos
tempos a pares e sós
tempos de sós a par
tempos mais demais sós
sem nisso realizarem
que só é quem se não saiba só
que o só de si é acompanhado

Pedro

2009-07-06

à luz de um sol


à praia, a luz amarela o sol rasante
entre um grão e outro da areia
que asas do vento
a brisa atravessa
os interstícios
entrelaçados
do brilho
a luz
do mar

Pedro

que misturo


misturo cores
misturo silêncios
misturo sabores
às vezes pigmentos

misturo olhares
misturo vontades
misturo passos
às vezes verdades

misturo sentires
misturo saudades
misturo pensares
às vezes luz

Pedro

2009-07-05

que tempos


diabos vermelhos
cor de sangue
bocas funestas
olhos fechados
tempos abertos
espaços contados
caminhos curtos
redondos armados

Pedro

2009-07-04

existências


perto de um novo arco-íris
como não ser teimoso em existir
mesmo que pareça incompreensível
são as cores a magia disponível
da energia de seguir e provar
do sabor de cada cor e do ar

Pedro

coisas


acho que uma das coisas que pecam nas abordagens ditas "novas" (whatever that means) é a necessidade de "rotura": como se viver o momento implicasse desvalorizar o passado e o futuro, ou o desaparecimento da dor e desilusão

acho que não

acho que isso nunca acontece;
acho que ao ir por aí se criam mais problemas do que soluções;
- se estou neste presente foi que o passado aqui me trouxe, e
- neste presente faço em permanência o futuro,
- com o segundo de agora já fiz passado e é o futuro que mo faz, e
- com isso mais do que nunca a força do
- aqui e agora, o momento vivo

isto são La Palices, não estou a criar nada de novo

o preconceito existirá sempre, as decepções também, os traumas vão-se vivendo (se não forem demasiado presentes serão só traumazinhos), as expectativas são mais do que humanas (são tb sal que dão tanta energia para seguir em frente, se forem em excesso é que podem consumir energia demasiada na frustração!),
viver é a mistura de tudo, e se tiver essa componente presente de consciência do aqui e agora, será/é tão mais rica a experiência de vida

há uma componente nisto tudo que a mim me faz ticking de forma diferente e tão melhor: impro, improvisation... improviso, não o desenrasca, não é isso, é a súmula do aqui e agora

Keith Johnstone (Keith JoãoPedra :-), um ou dois livros dele, o Impro, por exemplo, que dá as pistas para esta coisa que é a consciência tão grande do aqui e agora... ajuda tanto a eliminar os preconceitos, os filtros responsáveis por nos obrigarmos a termos sempre ideias interessantes (ou seremos desconsiderados!); isto do impro ajuda a criar o bom deixar ir porque a espontaneidade é a chave da vida

o que o Impro tem é isso: a recuperação da espontaneidade que, enquanto crianças, tínhamos a rodos e que as martelagens de tudo à nossa volta nos foi fazendo perder, ou moldar, ou recalcar...

a espontaneidade é o eu

e quando o eu é martelado para se formatar ao que são as convenções ou ao que se espera de nós (os scripts impostos dos outros, sejam pais, professores, chefes, colegas, e outros), começa o infortúnio de viver o que os outros querem que vivamos em vez de vivermos o que espontaneamente procuramos

isto não é a apologia da anarquia!
em rigor a anarquia advoga que a minha liberdade termina onde começa a do outro

e do meu espaço de conforto, outra forma de dizer liberdade, e do espaço de conforto do outro, eu não abdico, porque para existir o outro, eu existo, que eu sou o outro para o outro, e nisso sou eu
:-)
e vivo :-)

Pedro

lugares


com sons
palavras
vagares
entrementes

e silêncios
espaços
palavras
sons
bons

Pedro

que sons


nascida dos sons que geras
tu palavra geratriz
que significados depois
o que forem
o que sejam
vezes quantas
des-significados aparentes
sentidos
feitos
depois

ler entender escutar ouvir
tanto mais no eu que lê
se faz reflexo o que lê

Pedro

2009-07-03

lua


numa lua antes branca
pousou o sonho risonho
era o sonho de criança
um veleiro leve ligeiro

vinha p’lo azul conhecido
a tocar todas as estrelas
com os dedos pequeninos
de quem brinca com brinquedos

entre segredos de meninos
asas abertas pensamentos
fermentos de vida e viver
sorrisos risos e crescer

em quimera a acontecer
num corcel de magia
lua e sol o que vão trazer
a luz branca o novo dia


inspiração muito directa
(quase roubo vergonhoso, ou sem vergonha?!)
do original e lindíssimo
BRANCA LUA
Letra Ana Vidal
Música Rita Vasconcellos
Voz Mafalda Sachetti

obrigado pela inspiração :-)

Pedro

das letras dos sons que tons


há letras que se sentem sons
e sons entre letras aqui
que sons por aí a espaços
outros silêncios sons também

Pedro

país


um país de tourada
um país de fingir
um país à paulada
um país de fugir

este não é o meu país
mas que país é o meu?
um país de escarcéu
o país ensandeceu?

Pedro

sonho


o sonho é vida
que comanda o sonho
que comanda a vida
a vida sonho

sonho acordado
vivo sonhado
vivo acordado
o sonhar vivo

Pedro

gosto


gosto
do que traz e leva o olhar
que o olhar é a alma
a alma a vida
a vida tudo

Pedro

abraço que te vi vi-te


num abraço de despedida onde te vi
vi-te
num abraço na margem do comboio
vi-te
num abraço na margem do avião
vi-te
num abraço na margem de Anaheim
vi-te
num abraço na margem de Lisboa
vi-te
num abraço na margem de Boston
vi-te
num abraço na margem de Montreal
vi-te
num abraço na margem de Halifax
vi-te
num abraço na margem de Paris
vi-te
num abraço na margem de Bruxelas
vi-te
num abraço na margem de Atenas
vi-te
num abraço na margem de Amsterdão
vi-te
num abraço na margem de mim
vi-te
num abraço na margem em ti
vi-te
miúda que te vi tanto por onde tanto te vi
miúda
vi-te

Pedro

2009-07-02

no ti do tu do eu o eu


acredito num em ti
que é um tu
que é um eu
que é o eu
porque sem um ti
não há há um tu
não há um eu
não há o eu

Pedro

coração


quando o coração balança
o que balança o corpo
a mente que balança
que tom balança
de que som
que ser
tem

Pedro

estar


estar
só por estar
a deixar o tempo passar
por um estar com gozo de estar
a sentir do tempo o ar
que é só estar
por estar
e ser só
isso

Pedro

da magia da mudança


a magia do olhar que muda
porque a luz muda
porque o estar muda
porque muda o sentimento
e muda não é a visão
que vai falando enquanto muda

Pedro

reflexos


perder-se no encontro
no que corpo e corpos
se encontram

que reflexos do eu
na cor do reflexo
reflexo

que raios de luz amanhã
nos raios da manhã
amanhã

Pedro

passos


não sei os passos que são os que dou
nem dos passos que não dei

não sei tanta coisa que já sei
que não sei nem saberei

mas sei
que aos passos que faço
só eu faço o que sei e o que não sei
de mim o ar que passo
de mim o ar abraço
que sei como estou e saberei
aqui presente e consciente
nos passos que dou que não sei
onde me levam e levarei

Pedro

um dia um dia um dia


porque a vida são 3 dias,
em que dia estou?
porque a vida são 3 dias,
em que dia vou
mudar de vida mudar
sempre a tempo de mudar
que não seja só falar
que a vida são só três dias
que seja mais que só falar

Pedro

2009-07-01

de escrita


quando é de dentro
não tem tempo
ou data
é sempre
presente

Pedro

de viagem e avião


uma garrafa de água e limão
vous voulez des glaçons?
non, mais j'aimerais bien le stick presseur, celui que vient avec le chocolat chaud
ça?
oui, c'est ça, comment vous appelez ça?

pelo barulho dos motores vejo-lhe os lábios a falar
não ouço e não percebo
deve ter dito qualquer coisa de inteligente
sorrio

é muito bonita
como quase todas elas
e nem todas fazem sorrisos corteses de serviço

alguns sorrisos são de dentro sentidos sentem-se
faz uma certa diferença que é toda a diferença
para a maioria de quem veja os sorrisos devem ser todos sorrisos
para mim não

basta ver como fica o rosto depois do sorriso
se à volta dos lábios restos de sorrisos convidam a voos sorridentes
ou se a rigidez se instala como cadáver que já morreu

quase todas matam os sorrisos à nascença
prematuros sorrisos moribundos
e é triste ver sorrisos nado-mortos que falam da tristeza que lhes vai dentro

não se ensinam sorrisos verdadeiros
aprende-se da vida quando se é feliz ou se faz por ser feliz

a alma humana está por todo o lado e nenhuma situação é enfadonha
se existe alguém por perto

observo quem passa ou esteja
e todo o traço é um filme inteiro
que não descodifico completamente
nem pretendo não sou deus
mas encontro fontes inícios trânsitos estados
a maioria em preocupação aflitos
quase sempre apressados
e alguns em estar calmo porque sim

vejo poses olhares fugazes penteados cachecóis
e testas
as testas dizem muito tanto
quando carregadas que têm muitas pistas de autoestradas
variadamente completadas com olhos raiados a fazer de ferozes
mais algozes deles mesmos

nos sorrisos das hospedeiras
sinceros
nunca se tem a certeza que haja convites
e lembro-me do Truffaut no filme em que vem a Lisboa
e há um número de telefone numa carteira de fósforos
e já não me lembro do resto
mas lembro-me dele na Gulbenkian e duma pergunta da assistência
que lhe falava disso porque o filme tinha uma conferência em Lisboa
e ele estava ali connosco numa conferência em Lisboa
e chegou ao palco tal como no filme
através da cortina
e foi impossível não reparar no dejá-vu
e alguém lhe perguntou se tinha uma carteira de fósforos nos bolsos
e qual o número de telefone
e todos rimos gargalhadas alegres como se amanhã todos continuássemos vivos
e ele já tinha cancro e a morte adiada
e ninguém sabia
e eu era um puto deslumbrado com a vida do cinema
que já sabia que o cinema está em todo o lado
que ainda não sabia que a ficção é pálida
amostra
de toda a vida real

no voo de ida reparei numa hospedeira que me olhou
sem necessidade profissional
reparei é força de expressão
foi pela visão periférica
percebi um olhar intenso
e fui ver o que era
e ela olhava-me fixamente
e não desviou o olhar nem se embaraçou
simplesmente entregou-me um sorriso bonito
e sorri-lhe
enquanto duraram os olhares a ver-se e ela a passar

ela passou e eu guardei-lhe o sorriso
não sei o que fez ela do meu sorriso que lhe dei

já não se fuma a bordo
e ninguém anda com carteiras de fósforos
nem eu ia para Lisboa
nem dar uma conferência
mas não me impedi de pensar como é um namoro assim
como o da Filomena e o comandante alemão
ele no ar ela em terra
vêm-se quanto nas escalas extemporâneas

nestas viagens faço muitas coisas
durmo
durmo muito quando consigo que não me acordem

ao comandante havia de lhe encher a boca de trapos
quando se lembra de avisar a altitude, sempre a mesma
a temperatura lá fora, sempre a mesma
a velocidade, sempre a mesma
o trajecto, sempre o mesmo
a hora de chegada, sempre a mesma
a velocidade do vento, variável

podiam estar calados e calarem-se
e deixarem-me a alma chegar-se aos anjos

acredito em anjos
como não acreditar se sobrevivi
para contar

como foi que não tenha sido um anjo
que me guiou
que guinou
que fez
agora

só pode ter sido porque não tenho mais explicação

no todo racional e engenheiro e de inteligência que tenha
a poesia devo-a à vida
e a vida ao anjo
que tenha tido o desleixo de fugir das suas tarefas celestiais
que hão-de estar tão sobrecarregados que sejam infelizes como todos
e nessa fuga para descansar da enfadonhisse eterna
deve ter achado graça intervir
e nessa graça foi coreógrafo do meu ballet estranho

há lá coisa mais engraçada que piruetar de carro despistado às 6:45 da manhã
entre sons de tears in heaven a plenos pulmões?
o anjo deve-lhe ter achado graça brincar a deus por uns segundos
de eternidade adiada
os segundos em que renasço de todas as cinzas e do cheiro intenso
da borracha queimada ao som da luz da madrugada

acredito em anjos
não
acredito num anjo que me tenha feito dançar no palco da estrada para estar aqui
e se há um
talvez haja mais

abro a garrafa de água
que coloco um pouco no copo de água
e à meia rodela de limão
pressiono-a
para lhe dar a liberdade
de me gostar

repito o processo a espaços
enquanto
escrevo o que me apetece e inspira

como as nuvens que são água
os passageiros cabeças de fósforos
e tudo o que pelo ar me deixe ir sem pressa
sorrisos abraços ternuras carinhos
bolos pastéis natas travesseiros
escrevo entre sonos
espreguiço-me quando me levanto
a deixar passar a 5A
escrevo na memória de adormecer
devia anotar não anoto
ou me lembro depois ou que se lixe
agora durmo o descanso
não tenho pressa

aterramos
tento ver se temos manga ou autocarro
as da 14 em diante estão ocupadas
falta a 7 que não vejo
paramos ao lado da 7 preenchida
temos autocarro

sou o terceiro a sair
já no autocarro
vejo todos a descerem
telemóveis ligados
as conversas sempre as mesmas
chegámos


Pedro

tempo


entre uma vaga e um vagar
quanto tempo tem o mar
quanto tempo do fogo
quanto tempo o ar
vida e fome
de amar

Pedro

por uma espera de telefone


que espera é essa
tocante
que espera
audiante
que não se faça
requente
odiente


uma espera é um estado suspenso
quantas vezes a espera mais
a espera do eu suspenso


Pedro

pele


pelas mãos
pelos olhos
a pele à flor da pele
que mãos
que olhos
de quem

Pedro

2009-06-30

as letras das palavras


entre as letras das palavras
que brincadeiras de letras
fazem letras nas palavras

Pedro

tempos


tempos e tempos e tempos
que tempos tantos tempos
o estar de olhar-te silêncio
de um tempo parado só
tempo com tempo inspirado
num tempo tão breve só

Pedro

da forma


uma forma diferente
é como a própria sonoridade da palavra e da letra
e do silêncio
que uma linha esteja a pedir

às vezes nem se sabe que acontece

e quando acontece
que se perceba depois
é uma forma de alegria infantil
como o que infantil tem de puro,
é puro nascimento

Pedro

chegar


chegado aqui, que silêncio
o silêncio de ser um espaço
às vezes por preencher

Pedro

2009-06-28

espaço


mesmo no espaço vazio
há uma partícula só

Pedro

2009-06-27

entre isso e aqui


ser
existir
pensar
viver

livre
entregue
o eu
em si

quanto
do eu
é o tu
em nós

quanto
de nós
em nós
amor

Pedro

tudo tem um tempo


tudo tem um tempo
que não sei que tempo é
quanto ou onde

um tempo de pensamento
concreto
ou disperso
longo

um tempo imenso
redondo
um risco circular

e se o tempo for demais
o tempo será só mais
outra forma de prisão

Pedro

ao silêncio de que som


no ruído do meu silêncio não me perco, traço pontos entre linhas imaginárias, os pontos reais, os pensamentos incorpóreos, e entre um ponto e outro anoto as variantes de silêncio que percebo: o silêncio do vento parado, o silêncio do ar respirado, o silêncio do meu coração, o silêncio da minha alma; custa-me mais ouvir a alma, esse silêncio que toco de uma a outra letra à música que faço no silêncio que afogo o estar de solidão

há silêncios tão longos como uma noite longe

Pedro

auto-estima


para amar
te amo
a ti
eu

Pedro
auto-estima é aquela garagem onde estimam muito o carro de cada um; já a Auto Prazeres é mais reparações e tunning, na Terrugem

entre mãos


entre uma mão e outra mão
que mão te dá a mão
que mão na mão
o ar entre
ti e
não

Pedro

2009-06-26

where


what is the color of your reflection
where is the image of your soul
where the scent of your lips
where the eyes of your smile

Pedro

2009-06-25

the boy in the striped pyjamas



não me interessa se o filme está bem feito, se está na moda, se a realização é aprimorada, a adaptação irrepreensível, os actores brilhantes, ou o mais (ou menos) que for; não vi

li o livro e no texto me deixo, fico;
fascínio; brilho;
tocante; envolvente;
bem escrito;
tão bem escrito;
emocionante;
lê-se e vai-se
recomenda-se

a infância é um lugar

Pedro

quem diria


e em pequenas mudanças
de um trincar a outro
seis meses passados
o colesterol baixado
qu'isto é quem diria
também outra poesia

Pedro

2009-06-24

porque


porque criar é amar
porque amar é criar
porque arte é amor

Pedro

vida


arte que és fresta
vislumbre
relance
olhar de alma

Pedro

do saber de um estado


quem saberá do estado
que o olhar provoca
a que sabe o estar
de ver esse olhar
tão presente
instante
tão intenso
que o olhar de ver
a estar no que sabe
provoca quanto olhar
estado de quem não sabe

Pedro

em Genebra Atenas


em Genebra, Plainpalais, lembras-te, à minha frente, estavas sentada, e começámos a conversar, não sabíamos porquê

a solidão entre gentes desconhecidas é ponte de travessia fácil, começa-se a conversa porque afogar em silêncio não é opção, é a sobrevivência que leva aos sons da voz como jangada, e eu falei-te com o meu silêncio que escutaste pelos meus olhos a ouvir os teus sons na tua boca nos teus lábios que disseram do teu irmão em Atenas hoje é o aniversário dele e na semana antes zangaste-te zanguei-me com o meu irmão ficámos sem nos falar morreu de acidente de mota no dia antes do aniversário hoje era o aniversário morreu há seis anos estávamos zangados não nos falávamos morreu sem eu voltar a falar com ele

o meu silêncio ouviu-te lágrimas de silêncio em Plainpalais a dor de Atenas

Pedro

2009-06-22

inferno inverno


o que melhor fazemos é enganar o eu
tão melhor o fazemos
que é um espanto como o fazemos

o inferno não são os outros
o inferno somos nós

o meu inferno sou eu
e tanto que é meu
que é só meu
e que o será se o fizer

o meu inferno não depende de ninguém
só de mim
que mais vale que lhe faça inverno

inferno
digo-te inferno
faço-te inverno
tão congelado
que num toque
faço que desfaço

Pedro

2009-06-20

onde


onde te perdes
quando te perdes
em ti
que por ti te perdes
de ti em ti
por ti
que te perdes
onde

Pedro

no calor


do calor que seja cor
de amor
do quente que seja ser
de ter
do estar que seja ler
de olhar
o calor é olhar
o quente amor
o olhar ter
o amor ser

Pedro

tempo de um dia


há dias
como um dia
de dias e dias
tão feitos de dias e dias
de um tempo sem fim sem fim
e um dia
um dia
seguia por mim
sem percalço sem intenção
e o dia fez-se luz e tempo e espaço e quente
e sol e lua e tempo e tempo
como um dia sem fim
de um universo sem fim
porque o tempo era enfim
tempo querente tempo
tempo dolente tempo
tempo de ser tempo sem fim

há um tempo que fica suspenso
um tempo de um olhar assim

Pedro

nos olhos


que olhos abres
aos olhos
que te vêm
que olhos
olhares
para lá de olhares
que olhos vêm
que vêm os olhos
o teu olhar

Pedro

2009-06-16

coisas


das coisas sem importância
nascem tantas várias coisas

Pedro

cor de um eu


de que cor é o meu reflexo
quando me olho a mim reflexo
esse eu no modo de ser
o ser eu reflexo de mim

de que cor o meu reflexo
me reflecte e faz a mim
um eu aqui e um lá reflexo
de mim o eu fruto e nexo

Pedro

para Helena


de letras
de sons
entendimentos
tons
.
cantos
reflexos
refractos
perplexos
.
sentidos
caminhos
vivos
vistos
.
tempos
idos
tempos
vindos
.
de sons
as letras
os cantos
os tons
.
quantos
enquantos
dos cantos
os tons

Pedro

2009-06-15

reflexo


reflexo cintilado
faceta diamante
eterno brilho dentro
esse amor amante
criança diamante

Pedro

para lá do ver


para lá do ver o que vê
o que se vê

quanto o ensejo do ser
nesse ter
de ver para lá do ver
o que seja ver do ser

Pedro

a seguir e ler, Felix Dennis



Felix Dennis' odes to vice and consequences
Media big shot Felix Dennis roars his fiery, funny, sometimes racy original poetry, revisiting haunting memories and hard-won battle scars from a madcap -- yet not too repentant -- life. Best enjoyed with a glass of wine.

2009-06-14

a seguir e ouvir, Amélia Muge



http://www.myspace.com/ameliamuge
Autora. Compositora. Intérprete. Desafia com irreverência os gostos musicais de qualquer um. Quem a vê e ouve reconhece-lhe um mundo próprio, mas também surpreendentemente comum a todos. Um canto híbrido que reclama que o rosto da tradição musical, em Portugal, e a sua capacidade de modernização, nunca foi nem será apenas o fado.

a seguir e ouvir, Filipe Raposo



http://www.myspace.com/filiperaposo
Piano & acordeon player, composer, arranger

a seguir e ouvir, Ana Sacramento



http://www.myspace.com/anasacramento
SINGER AND ACTRESS UNDER CONSTRUCTION!

a seguir e ouvir, nox



http://www.myspace.com/noxtrio
my god, it’s full of stars!

catherine graindorge : violin & viola
david christophe : bass, double bass & voice
elie rabinovitch : drums