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2010-01-21

Serração I


Lembro-me de um grau de liberdade sem fim. É possível? Sem horário, sem local, sem meta, sem rota, ao impulso do instante. Liberdade inteira. É do que me lembro.

Saía sem me perguntarem onde ia. Andava por onde me apetecia. Com mais ou menos escuro, no céu, voltava. Ao outro dia repetia o dia. Andava, lembro-me de andar, corria pelas fazendas, os sapatos a enterrarem-se, a terra seca revolta, de arados, e por entre tabuleiros, e tabuleiros, os figos ao sol, moles a secar, espalhados, a cor que mudava, com o tempo, e o cheiro, forte fortíssimo. Não me lembro de companhia.

Com fome assomava à porta de quem fosse, perto, à hora que fosse. Pedia comida, bebida. Davam-me sempre. Havia sempre. A deshoras. A horas. Lembro-me de perguntas a que não respondia. Menores.

- Ah nino, a tua mãe sabe por onde tu andas?

A esta respondia sempre.

- Sim.

Pedro

2010-01-18

um dia


Olha que não sei. Não sei porquê, a coisa, a causa. Seguimos. Foi uma vontade de apetecer. Há partilhas que não se perguntam, vivem-se. Concordas? Disse-te vou levar-te a um lugar não faças perguntas. E cumpriste. Eu cumpri. Vivemos o tempo do espaço. Não sei como
há espaços que nos transportam onde não somos
Que coisa essa é que me leva me faz, isso que referiste dessa recorrência sobre as minhas palavras do espaço, aquele espaço, que não noto, que não percebo como seja a minha insistência no discurso oral do lugar, as vidas os cheiros os sons
cada lugar vive um tempo
Eu não sei o que o lugar me fez que me faz memória dele
É uma estranheza que me espanta
e no teu reflexo, no que me fazes ver de mim, chego-me de outro modo
disse-te
não sei nem o como nem o quando
um dia será que farei alguma coisa disto
um dia
Olha que sei que mostrar-te o lugar
falar-te dele no silêncio do vento
as paredes do abandono
às silvas a terra mole húmida
sei
um dia

Pedro